Top 10 | Discos de 2017

Alguns muito bons que poderiam ter aparecido na lista: Process (do Sampha), The OOZ (do King Krule), More Life (do Drake), A Shadow in Time (William Basinski). Alguns discos que tem conceito mais interessantes que a execução: Melodrama (Lorde) e 4:44 (do Jay Z). Por fim, discos que não sobrevivem ao hype: A Deeper Understanding (do The War on Drugs), American Dream (do LCD Soundsteam) e Black Origami (do Jlin).

Diferente de outros anos em que o acesso a vários dos discos era complicado, em 2017 todos estão disponíveis no Spotify. Além disso, tem link para as faixas selecionadas.  Vamos a lista então:

 

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10 | DAMN. – Kendrick Lamar | Hip Hop

‘Last LP I tried to lift the black artists
But it’s a difference between black artists and wack artists’

(Element)

O novo capítulo da jornada de Kendrick Lamar contra o mundo começa como uma narrativa épica sobre um soldado que já foi morto por um universo cruel. Diante de um deus gigantesco e incontestável, esse herói se entrega ao seu destino, sua herança maldita, seu cárcere social. Mas, como se trata de Kendrick, nem mesmo quando o disco parece sufocar de tantos comentários sociais, ele perde a elegância estética. É sim um trabalho sobre a cultura negra, mas é – assim como o antecessores – um grande exercício de estilo. Contabiliza-se aí também todo um trabalho minucioso com a atmosfera de cada faixa (numa empreitada digna de um expert em jazz e soul music). Para os mais simplórios, há outra alternativa que me soa interessante também: funciona como uma porrada na indústria fonográfica, totalmente aprisionada aos seus projetos de artistas negros ideais, modernos, prontinhos para consumo. Não importa o lado que se olha, trata-se de um grande disco.

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09 | A Crow Looked At Me – Mount Eerie | Folk

“But when we came home you were pregnant
And then our life together was not long
You had cancer and you were killed
And I’m left living like this
Crying on the logging roads with your ashes in a jar
Thinking about the things I’ll tell you”

(Ravens)

Aqui está uma opção para essa lista que não me parece das mais honestas. No entanto, sinto que se deixasse de fora estaria cometendo uma injustiça. Sendo sincero, Phil Elverum já gravou 2 discos muito melhores que esse (The Glow e Clear Moon), mas este é um projeto único. Confesso, terminei poucas vezes de ouvir. São canções tão tristes e absolutamente desveladas de segredos que chegam a me assustar. Este disco é real demais. Quase como se estivesse conversando somente com a esposa – recentemente falecida – Phil vai comentando abertamente como ele e a filha recém nascida se acostumam com a nova vida sem ela. O disco é isso. Ele desdobra as interlocuções sobre melodias tradicionais do Mount Eerie sem se preocupar com as ideias de noise que ele explorou no passado. Na linha de um Pink Moon (do Nick Drake), a coisa dá conta de se sustentar somente como um baita disco sobre a morte e a condição humana.

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08 | Hitchhiker (Original 1976) – Neil Young | Folk

“Daddy’s gone, my brother’s out hunting in the mountains
Big John’s been drinking since the river took Emmy-Lou
So the Powers That Be left me here to do the thinkin’
And I just turned twenty-two”

(Powderfinger)

O fato triste que o álbum (originalmente gravado em 1976, mas liberado somente esse ano) acaba estampando na história do rock é como o momento simplesmente passa. As pessoas são as mesmas, mas a inspiração simplesmente não está mais lá.  Ouvi-lo é se deparar com o auge criativo de um autor em seu estado mais bruto. Sem muitos enfeites, o que sobra ao ouvinte é ir ao núcleo dessas canções: suas melodias, suas letras e a performance emotiva do compositor. A realidade é sórdida para a carreira e paras as propostas de Neil Young em 2017 diante de Hitchhiker. É preciso entender que mesmo com boas intenções (e Young tem várias, minha favorita Le Noise de 2010), não é o suficiente para se fazer grandes canções e, principalmente, para criar grandes álbuns. Nos anos 70 parecia natural. Tão natural que, mesmo estúpido de simples, Hitchhiker chega a soar arrogante.

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07 | Crack-Up – Fleet Foxes | Folk/Indie Rock

“As I went they’re all beside us in silence
As if unaffected amid the violence
Ooh, are we also tamed?”

(Cassius,-)

É outro disco do Fleet Foxes. Sendo que nenhum disco do Fleet Foxes é somente outro. Depois do disco de estréia a banda parece que se tornou especialista em retornar à referências dos anos 60 (principalmente psych-rock) assim como as bandas de freak-folk, mas sem diluir o próprio som, de forma que o folk e as melodias vocais deixem de ser o principal. Crack-Up é, no entanto, bem diferente de Helplessness Blues de 2013. O que aquele álbum tinha de virtuoso, este tem de delicado. Pecknold tornou-se mestre em nos distrair do fato de que a banda lança essencialmente o mesmo disco com pequenas variações. Nada contra. Há bandas que tem essa capacidade de nos surpreender e construir novas jornadas para uma aventura antiga (o Beach House é outra banda que faz o mesmo). Por isso, Crack-Up nunca soa acomodado, soa errante. Como se cada instrumento sozinho pudesse nos levar para um lugar nunca antes visitado.

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06 | Para Quienes Aún Viven – Exquirla | Pós-Rock

“Y al final se desentierren
20.000 flores negras
20.000 flores blancas
20.000 espaldas con capuchas y electrodos:
Bajo un régimen de aislamiento”

(Destruidnos Juntos)

O pós-rock é um gênero que se auto sabota desde a origem. Está completamente morto. Então quem se importa com um álbum de pós-rock em 2017? Esses espanhóis do Exquirla nos dão um motivo para repensar. Com a ajuda de um cantor de flamenco, trazem um elemento novo à discussão: cadência. A voz parece emprestar às melodias tradicionais um ritmo de desolação. Se tudo no gênero é sobre destruição (o título de um das faixas não me deixa negar, chama-se “Destruídos Juntos” e conta com uma versão tocada na sala de ‘Guernica’ do Picasso), então porque não adicionar vocais que colaboram com a sensação de decaimento, de fim dos tempos? Dentro dessa construção, a banda busca entender a finalidade de um tipo particular de sensibilidade e  com isso refletir sobre o isolamento de um estilo e a morte simbólica de seus artistas. Lindíssimo.

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05 | Peasant – Richard Dawson | Folk

When the sun is dying
We’ll pitch a tent of pigskin on the beach
When the sun is dying
The ebbing tide will soon reveal its secrets”

(Ogre)

Poucos discos de 2017 soaram tão estranhos quanto Peasant – não à toa o disco caiu nas graças de revistas que gostam de um azarão. Chamar esse disco de bizarro, no entanto, não faz jus a sua beleza. Um disco que conta sua história à partir da narração de personagens que ninguém geralmente se identifica (o ogro, a prostituta, o soldado comum, o pedinte) para celebrar os extremos da vida (os temas brincam com ideias sobre luz e escuridão, guerra e paz, barbárie e ordem). Diferente de outros discos de folk que soltam a mão do ouvinte em prol da ascensão do estilo, Peasant sempre nos mantém ali junto aos personagens. É um disco que se desenvolve junto com a imaginação do ouvinte. Como era de se esperar,  foi feito para soar belo mesmo quando deixa exposto as suas imperfeições. Ao longo da experiência, aos poucos, aprendemos a abraçar essa estranheza como uma fonte infinita de renovação.

 

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04 | Big Fish Theory – Vince Staples | Hip Hop

“Where I’m from we don’t go to police
Where I’m from we don’t run, we just roll with the heat
I’m the back of the bus, take a seat
Take a ride on my side where we die in the street”

(Rain Come Down)

Big Fish Theory conta com tantos momentos inspirados, que nos mostram como um rapper pode se conectar quase absolutamente ao trabalho dos produtores. É impossível dizer onde o discurso poderoso de Staples acaba e a ideia sonora dos produtores começa. Os beats funcionam praticamente como feridas na malha melódica (surpreendentemente delicada para um disco de hip-hop), onde a voz icônica de Staples parece surgir para agredir o ouvinte. Ele nunca deixa de mostrar o lado escuro da vida das ruas, sem antes mostrar a violência que também conhece nas relações humanas. Está aqui um álbum muito objetivo e cru, estranho demais para o atual estado reflexivo do hip-hop. O incrível é como Vince permanece completamente palpável: dentro do fuzuê eletrônico, o rapper continua a imperar.

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03 | Compassion – Forest Swords | Ambient Dub

(Raw Language)

Matthew Barnes talvez seja o que o Clams Casino seria se não estivesse a todo momento tentando criar a sonoridade mais sexy da humanidade (I’m God é uma tentativa digna, eu admito). Pelo contrário. Se o disco anterior, o também ótimo Engravings de 2013, explorava temáticas sexuais constantemente, este, chega a ser bruto. Está aqui a resposta definitiva do Forest Swords ao estabelecimento de um estilo: um disco nada enfeitado, nada exagerado. Isso provavelmente incomodou os que esperavam uma obra tão indescritível quanto Engravings. No entanto, nenhuma crítica supera o fato de Compassion soar tão poderoso sozinho, como um objeto ideal na sonoridade de um produtor que, até onde eu entendo, explora gêneros até óbvios para a eletrônica. Drones, ambient, vocalizações, percussões. Ora encostando na plenitude do pós-rock e ora na precisão do hip-hop. Não importa o ponto de partida para Barnes, tudo em Compassion parece estar absolutamente onde deveria estar. Com perdão pela expressão: um puta de um disco.

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02 | Arca – Arca | Glitch

“Tócame de primera vez
Mátame una y otra vez
Ámame y átame y dególlame
Búscame y penétrame y devórame”

(Desafío)

O que aconteceria se o Arca decidisse gravar um disco pop? Este álbum não chega a responder essa curiosidade, mas certamente nos dá impressões do que ouviríamos. Não se engane! Arca, o homônimo do artista, é essencialmente um disco de produtor: desafiador, incorrigível, em alguns momentos quase intransponível. Audições mais cuidadosas deixam claro que a força das canções surge da qualidade muito particular do som e não exclusivamente do trabalho melódico. Entretanto, como é digno de um verdadeiro disco de cantor, inúmeras audições finalmente deixam exposto o intérprete num oceano de sonoridades afiadas, às vezes até grosseiras. Soa como os melhores discos da Björk nos anos 90: estranho, mas absolutamente humano.

 

flowerboy

01  | Flower Boy – Tyler, The Creator | Hip Hop/R&B

“Bored and getting desperate as hell
(Desperate, using, texting, amusing)
Cellular not amusing and I hope someone will
Message me with some plans that are amusing as well”

(Boredom)

Alguns foram rápidos no gatilho e logo taxaram como um retrocesso na carreira de Tyler. Onde está aquele rapper alucinado que falava em destruir colégios e queimar igrejas? Onde está aquela sonoridade rústica e aquele humor idiota? Vamos com calma: está tudo aqui. A produção cuidadosa, quase doentia de Tyler pode dar uma impressão errada de que a fera foi domada. Mas não é o que o disco nos mostra. Pelo contrário, trata-se do único álbum que ouvi esse ano em que vejo um artista completamente inquieto com cada amarra impostas pelas canções que criou.

Tyler está em todo canto dessas faixas. Quebrando as nossas expectativas a todo momento. Começa faixas como se fosse voltar à agressividade do passado, só para acabar falando sobre sexualidade e tristeza. Intercala canções delicadas sobre tédio e solidão (See you Again, 911, Boredom) com outras faixas festivas e cheias de energia, repletas de piadas adolescentes, insegurança e bobagens que só ele poderia falar (Who Dat Boy, I Ain’t Got Time).

O diferencial, no entanto, é que o artista finalmente cresceu. Tudo o que Flower Boy contempla reflete um trabalho minucioso (quase documental da própria história artística), utilizando arquétipos de sonoridades inventadas por ele (em Goblin de 2011) e por seus companheiros (é disco que presta tributo claro aos discos recentes do Frank Ocean). Tudo isso sem largar o lado improvisado do Odd Future e a atitude de rebelde sem causa do antigo Tyler, The Creator.

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Escrever, uma maldição

subway

Desde que eu larguei a faculdade de comunicação social em 2013 devo ter sentado duas, três, talvez quatro vezes para escrever. Era como se algo em mim tivesse morrido. Não era falta de inspiração ou de tempo (embora eu deva ter colocado a culpa nessas duas coisas na maioria das vezes), era falta de uma função para minha escrita. Eu sei que qualquer prolixo desleixado não precisa de uma função específica para abrir o word e digitar 10.000 caracteres, mas eu precisava. Para mim, um vestibulando em medicina e, posteriormente, um estudante de medicina, a escrita não podia mais fazer sentido.

Houve, claro, uma mudança brusca de hábitos. Antes eu gastava meu tempo ouvindo discos, lendo livros e assistindo filmes. Essas atividades que antes eram o carro-chefe do meu cotidiano pouco a pouco se tornam coadjuvantes. Não porque eu precisei fazer, mas porque definitivamente minha atenção e prazer se voltaram intensamente para biologia como um todo. Difícil explicar o prazer de ler um bom capítulo de um livro de medicina. Eu mesmo lá em 2010 ou 2012, completamente inserido no universo da arte, provavelmente não entenderia a pessoa que me transformei. Quem trocaria um maratona de filmes do Lynch pelo Harrison? Um disco do Animal Collective por um artigo sobre esclerose múltipla?

Por três anos ignorei aquela vontade voraz de escrever sobre absolutamente tudo. Correndo o risco de fazer um baita papelão, diria que quase voltei a escrever uns contos quando terminei de ler Os irmãos Karamasov no verão passado. Mas a maldição havia sido quebrada: Pedro não precisava mais escrever.

Não preciso medir palavras, afinal, o blog sempre foi uma válvula de escape perfeita: a merda da maldição voltou a me assombrar há uns meses já. Pedro precisa, de novo, escrever. Sobre o que? Ainda não sei bem. Talvez sobre ser um estudante de medicina. Ou talvez sobre discos e filmes que consegui assistir (sinto que poderia escrever alguma coisa minimamente decente sobre Manchester à beira-mar do Kenneth Lonergan e a interpretação esmagadora do Casey Afleck, ou sobre o disco de estreia do Sampha).

Esses dias ganhei um apreço inexplicável pelo metrô. A ponto que pensei em escrever sobre ele ou sobre um futuro distópico qualquer. Ou sobre cervejas e amigos. Ou sobre tudo isso.

Enfim, a maldita vontade de escrever voltou. O tempo provavelmente vai me dar um golpe cruel e esmagará sem dó nem piedade essa vontade. Mas quem sabe? Quem sabe eu não consigo lidar com isso de uma forma saudável – o que me faz pensar que seria interessante descrever sobre a saúde de um estudante de medicina (meu deus, não dá para parar).

Vai ser o que der. Quando puder tentarei atualizar com comentários breves minhas observações sobre discos e filmes de 2017 ou sobre qualquer coisa interessante que venha a chamar minha atenção. Eu já mencionei que o metrô me fascinou esses dias? Pois bem, começou assim…

PS: Por hora acho que vocês deviam clicar aqui e ouvir a faixa mais bonita gravada em 2017.

Top 10 | Faixas 2015

Para ouvir as músicas clique nos títulos.

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10. My Baby Don’t Understand Me – Natalie Prass

“What do you do when that happens? Where do you go?”

Talvez fosse necessário tentar explicar como Natalie se apropria de elementos do country pop que é extremamente popular nos EUA, mas que daria sono em qualquer pessoa que conheça minimamente o cenário, e o torna mais elaborado, mais rico em detalhes. Porém, o que mais me chama a atenção nessa faixa é como com um sentimento comum, uma melodia simplória e uma produção perfeccionista, Prass encontra a canção pop mais contundente de 2015.

therenoshade

9. No Shadow in the Shade of the Cross – Sufjan Stevens

“Like my mother give wings to a stone”

Não importa o quão vasta seja a imaginação de Stevens, suas imagens são sempre fruto da sua formação cristã. Nesse ponto, esta faixa se mostra a mais intensa entre as que ele escreveu esse ano, é nela que o compositor consegue unir todo seu imaginário e dar forma ao sentimento de isolamento que assombra todo o álbum recente (Carrie & Lowell). Stevens continua sendo o mais talentoso de sua geração. De arrancar lágrimas de uma pedra.

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8. Atom Dance – Björk

“Enter the pain and dance with me”

Há alguns anos a compositora islandesa encontrou a nova gramática da sua música na força da natureza. Atom Dance é, nesse sentido, o magnum opus dela. Extrapolando os limites do visível, Björk inventa uma dança de átomos, colocando toda nossa unidade além do mundo observável, buscando a emoção da dança naquilo que há de mais complexo e belo na existência. Com violinos que rasgam a sua voz e a dramaticidade dos backing vocals de Antony Hegarty, a moça, de novo, nos convida ao desconhecido.

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7. Lonely Wanderer – Panda Bear

“Was it worthwhile?”

Repetindo um sampler de Arabesque do compositor francês Claude Debussy, Noah tenta nos colocar no core emotivo de Lonely Wanderer, carregando-nos com ela a uma reflexão particular sobre a finitude da vida. Com um desdobrar lento e preciso, o sujeito nos pergunta se todas as nossas decisões e idiossincrasias nos levaram para o lugar certo… se, enfim, a jornada valeu a pena. Colocaria Brian Wilson para chorar copiosamente.

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6. Silhouettes – Floating Points

Jazz, música clássica, ambient e muita sensibilidade. É basicamente o que se pode dizer dessa obra gigantesca, que simula um passeio cósmico às diversas referências musicais de Sam Shepherd. Como um bom nerd de música, o sujeito minou tudo que ele acreditava ser fundamental e colocou nesse frankenstein, tão repleto de detalhes que cada revisão minuciosa ainda mostrará segredos. Um verdadeiro presente ao ouvinte que se aventura nos seus 10 minutos de revelações, desdobramentos e perplexidade diante das possibilidades que somente a música permite.

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5. i – Kendrick Lamar

“I promise this: I love myself”

King Kunta, The Blacker the Berry, Wesley’s Theory, you name it. Não importa para onde olhamos, em 2015 ninguém escreveu tantas canções importantes e incríveis como Lamar. Porém, enquanto a maioria das obra-primas de To Pimp a Butterfly focam o lado mais agressivo da poesia dele, i foca no lado festivo que existe nela. Com um mero “I love myself” e uma guitarra redentora, Kendrick dá nova vida à cultura negra, com todo seu esplendor e relevância, com sua rica cultura, religião e música. Trata-se do grito mais direto e poderoso do maior rapper vivo: que se dane o resto quando você ama a si mesmo.

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4. Time, as a Sympton – Joanna Newsom

“Not axe nor hammer, tumor, tremor, can take it away, and it remains”

Recém casada com o comediante Andy Samberg, Joanna nos leva a meditar sobre as certezas do tempo e o mistério que ainda é a significação do amor e da morte. No mais, é apenas outra canção de Joanna Newsom – com o detalhe de que outra canção dela, nunca é somente uma qualquer. Ainda apoiando-se sobre seus vocais excêntricos, ela vai escalonando uma melodia de piano que vai subindo até se sustentar na força da letra (“the joy of life” ela repete enquanto ouvimos pássaros cantando no fundo). Talvez seja a faixa mais casual que ela escreveu, mas é certamente uma das mais belas. Eu juro: o clímax é a prova da superação humana. Transcendente e uma lembrança de que ninguém escreve letras como ela.

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3. Sunday Candy – Donnie Trumpet & the Social Experiment

“I ain’t seen you in a minute let me take my butt to church”

Chance the Rapper, o cara que desde que apareceu só nos oferece obras do mais sereno estado de graça. Qualquer projeto que ele se envolva dá certo, é impressionante. No caso dessa faixa, Chance atualiza a gospel e a música tradicional, trabalhando um tema muito caro ao hip hop: a família. Mas ele é diferente de tudo. Com paixão e bom humor, Chance volta à infância para lembrar da sua avó, transformando a memória do amor no maior dos elementos sagrados. Quase uma cantiga infantil, Sunday Candy é uma das maiores vitórias do hip hop em 2015: inovador e alegre.

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2. REALiTi (Demo) – Grimes

“Baby every morning there are moutains to climb”

Se eu pudesse eu voltaria no tempo e retiraria metade das coisas que eu disse sobre Grimes. Me desculpo agora: está aí a voz de uma geração. Pra começar, Grimes administra com perfeita sintonia a absurda distinção que existe entre a música eletrônica das grandes paradas e a delicadeza sentimental do synthpop. Ela teve que errar feio com Go em 2014 para encontrar um meio termo, uma dimensão ideal. Daí que essa versão demo de ReALiTi simboliza esse encaixe, com seu ambiente obscuro e solitário sendo delicadamente bombardeado por sintetizadores calorosos. Por fim, também demonstra a sua capacidade de se comunicar com o tempo em que vivemos. Aqui ela pinta o painel: a verdade não está mais lá fora nas ruas, mas dentro de nós, e a beleza de se notar isso é tão forte que pode nos enlouquecer muita das vezes. Dialogar com a realidade é o desafio.

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 1. I Know There’s Gonna Be (Good Times) – Jamie XX

“I’ll survive in a mothafuckin’ gutter”

O sujeito mais clássico da eletrônica moderna se junta com o rapper mais emocional do cenário, o resultado é essa falsa feed good music, uma verdadeira arma de nostalgia. O que mais me impressiona, toda vez que eu ouço a música (e não foram poucas), é sua incrível atmosfera. Mais do que a sua alma pop, I Know There’s Gonna Be possuí uma característica rara na música contemporânea: uma capacidade singular de ecoar o passado sem se entregar cegamente. Quase como um Bob Dylan, Jamie vai atrás de uma sonoridade particular (os anos dourados da soul music) e a atualiza com respeito e imaginação (ouvimos ecos de balearic beat, house, IDM e uma porção de outras coisas). Bom perceber que, para Jamie XX, o passado é a fonte de toda ambição e o futuro o caminho a seguir.

Pop, She Wrote

No primeiro minuto de Realiti, a décima canção de Art angels (o quarto disco da Grimes, o segundo a sair pela 4AD), a narradora nos confessa: “O seu amor me manteve viva e tornou-me insana”. Você considera essa uma confissão vergonhosa? Você considera isso real?

Claire Boucher, a Grimes, como sabemos, é uma persona excêntrica que circula pelos festivais de música e moda despertando curiosidade de quem cruza com a figurinha. Ela também sempre nos foi apresentada em suas canções como uma doce menina, tão sentimental quanto qualquer um. Também nos foi apresentado seu universo de imagens abstratas, capaz de produzir letras vagas demais na opinião de alguns ouvintes. Ouça Oblivion ou Skin e tente retirar algo mais do que impressões dos sentimentos retratados.

Neste disco novo, Claire deixa de observar o vento batendo nas árvores, o movimento repetitivo dos corpos e o bater de seu coração, para escrever canções que realmente apelam para a alma pop que se escondia entre seus beats mais cadenciados e melodias etéreas. Sem baboseira. Sem poesia. Grimes rasga os livros de Virginia Woolf e vai ao inferno com todas as suas referências pop. O retorno a superfície não podia ser mais interessante. A mocinha volta de lá com tudo que há de ruim e trata isso como se fosse o bem mais sagrado da humanidade.

Desde o princípio, não vemos mais a ilusão emotiva ganhar o espaço que pertence a realidade. Grimes não precisa mais de seus ídolos, o dedo repousa no rosto de quem for. “California, you only like me when you think I’m looking sad” dispara em California, sobre sintetizadores e guitarras de indie rock. A mensagem, não se engane, tem endereço.

O que mais me aproxima dele, no entanto, é como apesar de ser um disco insanamente pop, soa extremamente imaginativo. Ela não parece mais se interessar tanto pela ambient music ou pelos demais sub-gêneros que claramente fazem parte da formação musical dela, mas demonstra como a música pop pode se adaptar aos temas que ela trabalha, mesmo que esteja sempre em busca de um refrão memorável.

Grimes, além disso, é uma perfeccionista. Não há um momento sequer no álbum em que se veja uma ponta solta. Seja nos momentos mais diretos como SCREAM (um punk pop com versos da rapper tailandesa Aristophanes), seja nos mais delicados como Realiti. A tentativa é de sempre oferecer ao ouvinte o vocal ideal, a pausa correta, a melodia mais intensa.

Por fim, é um disco sobre o que eu perguntei lá em cima. Trata-se de um álbum que se interessa pelo ridículo, o que às vezes o aproxima perigosamente de um Sleigh Bells ou de coisas mais duvidosas como Lana Del Rey, com a diferença de que Claire é, acima de tudo, uma exímia observadora. Ela se entrega sim, mas não sem deixar uma pancada aqui e ali. “Quando eu me levanto, é isso que vejo” conta em Realiti e pouco depois infere sorrateiramente que “somos todos iguais”.

Para ela não importa se você é capaz de sentimentos complexos, basta estar vivo no século XXI para ser parte da história. Tudo faz parte da realidade que é construída cada dia com nossas mensagens nos celulares e computadores. Verdade ou mentira, pouco importa. Hoje, isso faz parte da nossa complexidade. E a música, bem, como Belly of the beat nos conta, está aí para nos fazer fantasiar tudo isso e amar um pouquinho mais do que o normal.

O tempo dos fortes

Começou com um disparo em seco. Ele ainda caminhava a esmo, sem qualquer atenção ao perigo. Existe, de fato, esse estado de autocontrole e segurança em que se acredita que nada pode dar errado. É como se o seu ser estivesse em um campo gravitacional próprio, capaz de regular suas próprias leis naturais.

Aí o inimigo surge no fim da linha como uma sombra e o mesmo ser lembra que ainda está no planeta Terra. Ele não precisa se lembrar, por outro lado, que é um animal e que nesse momento, é um animal sendo caçado. Seus instintos são de bicho. As pupilas dilatam, o campo visual se torna gigantesco. A bexiga se constringe. Os brônquios se abrem recebendo massas grosseiras de gás oxigênio. O coração dispara, bombeando violentamente o sangue da criatura. Ele é um bicho-máquina. “Estou sendo caçado” compreende.

Este não é como outras criaturas mal treinadas. Seu pensamento seguinte não é o hipócrita “acalme-se”; seu recurso é mais primitivo, o cérebro reptiliano comanda: ele se agita. Sua pele parece ferver. Os pés saltitam como se um acelerador interno estivesse se aquecendo para dar partida. O corpo então começa a agir, correndo para se esconder enquanto a manta negra que o cobre se movimenta em respeito às leis naturais desta terra.

O frio cortante daquela ponte não parece fazer diferença, principalmente quando uma rajada de tiros começa a perfurar todos os carros abandonados. O ambiente está quente como lava vulcânica. A criatura quer gritar. Mas não é medo. É excitação. Seu sangue vibra, está na hora de lutar para sobreviver.

A resposta não é de proporções pequenas. Ele toma a metralhadora pouco maior que seu tronco e começa a disparar. Enquanto outros pensariam em situações inspiradoras como “preciso vencer o obstáculo” ou em outros dilemas existenciais “essa é minha chance de provar ao mundo o contrário”, ele se restringe a concluir: “Eu vou sobreviver, porque sou o mais forte”. Seus tiros são, a princípio, sem qualquer estratégia. Sua vontade é somente de acuar seu inimigo.

O pente continua a supri-lo de balas enquanto as cápsulas vazias continuam a cair contra o assoalho. O que ocorre em seguida é assombroso. Sem qualquer cuidado pela sua segurança, a sombra se projeta veloz utilizando os carros como barreiras aos tiros. Na correria, começa a sua resposta. Sua arma aponta para o destino e inicia sua contra performance. O barulho é perturbador. Duas almas colidem numa batalha colossal.

Quando as armas esvaziam seus pulmões, só lhes resta o combate frontal. A criatura ainda olha o revólver repousando na cintura, mas desiste. Há mais vida nos seus punhos. Está na hora de conhecer seu rival. O tempo real continua normal, fugaz, mas o tempo psicológico dos personagens é mais dramático – aquilo tudo lhes parece durar semanas, meses, até mesmo anos. Finalmente, monstro contra monstro.

Chove intensamente no limiar do encontro. A sombra saca uma faca, mas é rapidamente desarmada. Nada de instrumentos. Nada de coadjuvantes. Ele arranca o revólver da cintura e o lança o mais longe que pode. Seus corpos se projetam a frente. Os mecanismos motores de suas máquinas são acionados para que seus músculos e ossos possam machucar a carne do inimigo. O sangue rapidamente é convidado a se retirar de suas cavidades mais internas e, pouco a pouco, vai pintando o cenário.

A sombra vacila. Está cansada, ferida. Ela caminha sem equilíbrio, o cerebelo dançando dentro do seu crânio. Aquela valsa está perto do fim. A criatura observa o resultado da interação de todas as peças do seu quebra-cabeças. Está na hora de fazer o cosmos, de novo, contemplar a lei dos mais fortes. A lei daqueles que se levantam de derrotas, que estabelecem sempre novos desafios para seus limites. Seus olhos brilham, a ponte estremece com o impulso final de seu golpe. E a noite é presenteada com o momento em que todas as criaturas invencíveis, imortais, insaciáveis, bebem da fonte que mantém a vida vibrante. Ele ainda não pode ser derrotado.

Duas visões sobre o Amor que se completam

Psiquê e Eros

A visão nobre:

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”

(1 Coríntios 13)

A visão objetiva:

“O amor põe em evidência as qualidades elevadas e ocultas daquele que ama – o que nele é raro, excepcional: assim fazendo, engana acerca daquilo que nele é norma”

(Nietzsche em 100 Aforismos sobre o amor e a morte)

In Colour do Jamie XX em frases breves

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In Colours, segundo disco do Jamie XX. 2015.

1. Escrevi em abril do ano passado na época do single Girl: “Mesmo operando um pequeno milagre na crueza de XX, esse pântano que mistura sensibilidades muito diferentes (pop e sub sonoridades, retrô e moderno) soa como um passo enorme a frente. Um forte indício de que, se continuar assim, Jamie não vai deixar muito a dever ao Burial: parece vir das profundezas, mas tem pedigree de música pop.”

2. Essa frase superficial me ajuda a entender algumas coisas. Primeiro, não importa o quão caótico o som dele se torne (Gosh é um ponta-pé nos fãs do The XX), Jamie sempre vai se apoiar em arquétipos de música tradicional. Muita gente vai comparar In Colours a Four Tet – e eu concordo com eles -, mas o inglês continua sendo muito mais emotivo do que a sua referência.

3. Bom para nós, porque dessa forma o disco jamais perde a carga sentimental e, ao mesmo tempo, nunca entrega uma faixa que seja exatamente a imagem da anterior. Ou seja, Jamie é emotivo sem ser piegas e é versátil sem soar pedante. Tudo aquilo que um sound designer detesta.

4. Não dá pra não comentar o perfeccionismo do cara, até porque é visível como ele tenta evoluir sons que experimenta desde o princípio, na tentativa de achar o limiar ideal. Assisti um show do The XX em 2013 e me lembro dele tentando atribuir sonoridades de gêneros bem específicos dentro dos limites das lovesongs da banda. Aqui, sem um fator limitante, cada faixa ganha um universo bem particular. Cada uma parece querer referenciar um sentimento muito particular junto com uma carga melódica altamente específica.

5. Não à toa exista a presença fortíssima de um faixa de hip-hop. Com todo seu jeitão de música descontraída e seu vocabulário particular. Isso porque Jamie entende a música como um painel de sensações que são despertadas não necessariamente por uma identidade com o que o vocalista canta, mas com algo mais primitivo. Se hip-hop é sobre sexo e festas, vamos inserir isso num contexto sentimental que tenha, principalmente, respeito com a história do gênero. Young Thug parece entender a ideia e entrega um interpretação muito nostálgica, condizente com o projeto.

6. A estrutura do disco não é boba também. Loud Places, uma música sobre sair pelo caos das boates para encontrar “alguém para ficar em silêncio”, precede I Know There’s Gonna Be, que trata de curtir e se divertir a qualquer custo. E, dentro da construção sonora, soam como se pertencessem ao mesmo planeta. Ambas parecem dever muita à black-music, outra vertente forte das referências dele (jazz e r&B, principalmente).

7. Outros momentos revelam o talento para dance-music. Veja Stranger in a Room, que começa quase como uma faixa do The Knife e se deixa levar por um beat típico do The XX. Podia ser uma paródia de músicas de eletrônica, mas é apenas outra declaração de amor de Jamie aos gêneros que ele tanto admira. A guitarra ao fundo funciona como um presente aos fãs do The XX.

8. Por fim, o ponto mais alto é Seesaw. Uma espécie de resumo do trabalho. Está lá uma sensibilidade romântica, marcada pela voz de Romy ecoando por toda a música. Lá está o beat duro que jamais permite que o ritmo da música se perca. Ao todo, me parece uma forma de conectar a eletrônica e seus sub-gêneros dentro de uma malha melódica que una os mais diversos tipos de ouvintes. O pesadelo de todo sound designer. A ilusão em technicolor que esperávamos desde 2009.