O Serviço de Entregas da Kiki

Em 1989, Miyazaki já havia dirigido pelo menos dois filmes mais ambiciosos do que O Serviço de Entregas da Kiki: Meu Vizinho Totoro de 1988 e Nausicaä do Vale dos Ventos de 1984 (filme que deu origem ao estúdio Ghibli). Esses dois eram longas de temas difusos e de imagens mais abstratas (como é a obra-prima do diretor, A Viagem de Chihiro). Kiki, por outro lado, utiliza uma disposição completamente clássica para tratar do amadurecimento de uma criança. Se esse não é dos seus filmes mais inventivos, certamente é um dos mais perfeitos dramaticamente.

Kiki é uma bruxa de 13 anos que tem de deixar sua casa para perpetuar o ofício em outra cidade. Junto com o seu gato preto Jiji (provavelmente o personagem mais carismático de toda a obra de Miyazaki), a menina vai embora deixando os pais para trás e sai voando em sua vassoura até chegar numa pequena cidade à beira-mar. Nos primeiros vinte minutos de narrativa, sem saber exatamente o que deve fazer, Kiki vaga pela cidade experienciando o que é não ter uma vocação e, principalmente, o que é estar desempregada.

Utilizando seus poderes de bruxa, a menina começa a fazer pequenas entregas nos arredores da cidade. Ela passa a morar num quartinho oferecido pela dona de uma padaria que a acolhe – e que logo passa a servir como imagem maternal. Ali a jovem Kiki vai aprender o que é trabalho e responsabilidade.

O processo de amadurecimento da bruxinha passa não só por uma transformação particular que envolve cansaço e adversidades, mas também uma transformação emocional. Até o final do filme Kiki aprenderá a superar as feiuras do mundo e fazer delas motivo para enxergar o que importa. Quando ela leva a torta que passou a tarde toda preparando com a velhinha para sua neta ingrata, não é somente a protagonista que sofre, mas o próprio filme – principalmente porque até então só conhecemos a gentileza nos homens.

Miyazaki deixa que as crianças – seus principais espectadores – percebam que nem sempre vão encontrar pessoas que merecem o seu esforço. E Kiki sofre horrores até conseguir entender isso. Principalmente depois de conhecer uma pessoa tão boa quanto aquela velhinha. O seu sofrimento passa inclusive por uma incompreensão dos que a querem bem. Tombo é rapidamente transformado em vilão quando ela descobre que ele é amigo da neta ingrata. Justamente porque no mundo que ela havia vivenciado nos últimos 13 anos não permitia essa feiura.

Kiki começa a perder o controle e se desentende com a própria vocação, perdendo, inclusive, seus poderes. É um roteiro clássico, afinal, e a protagonista precisará passar por outro obstáculo para afirmar seu amadurecimento. Esse novo impasse é deflagrado no segundo encontro dela com a amiga artista. É dela que Kiki ouvirá pela primeira vez a palavra vocação. É com esse debate que a protagonista percebe que vivenciar o mundo envolve frustração e, para vencer isso, é necessário esforço. Até então ela achava que as coisas simplesmente viriam naturalmente, mas sua amiga a faz entender que todos suam para conseguir atingir seus objetivos.

Antes de perder os poderes, Kiki diz que voava sem pensar muito. Depois disso, a bruxinha começa a perceber que o mundo dos adultos envolve não só a ação, mas a contemplação. Agora ela precisará pensar. O mundo, mesmo o prático, sempre cobrará isso dela.

A parte final reforça o tom clássico do roteiro. Kiki precisará sobrepor sua perda temporária de poderes para salvar o amigo Tombo. O último dever de um adulto é ultrapassar as diferenças e agir conforme a situação lhe cobra. Ainda que, na temática do filme, o mundo adulto precise de um pouco de magia. Magia que nunca falta nos filmes de Miyazaki. O Serviço de Entregas da Kiki (1989, Japão) de Hayao Mizayaki. ***

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One thought on “O Serviço de Entregas da Kiki

  1. Boa mano! Kiki’s Delivery Service merecia um review, aliás como todos os filmes de Miyazaki. Inclusive, Nausicaa podia rolar um também ahahaha! Gostei muito da análise por trás desse review. Me fez querer ver o filme novamente!

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