Bling Ring

Em todos os filmes da sua curta filmografia (de Virgens Suicidas de 1999 até Um Lugar Qualquer de 2010) Coppola defendeu personagens completamente esquecíveis, seres comuns, vivendo cotidianos igualmente comuns. Não fossem alguns desses personagens figuras ricas e ilustres (o casal de Encontros e Desencontros e Maria Antonieta, por exemplo), nada de extraordinário acometeria o universo dos seus filmes.

Ainda que todos fossem personagens desinteressantes, o olhar de Sofia era capaz de traduzir para o espectador a desilusão de seus heróis. O vazio que a câmera da moça procurava, sempre emergia dos seres que ela filmava, nunca ao contrário. Daí o porque desse Bling Ring me parecer o pior dos seus filmes. Ao procurar respostas no mundo externo, Coppola realiza um antídoto (que é mais um veneno) aos filmes de Gus Van Sant, e acaba reduzindo um problema que, certamente, é muito mais amplo.

A adolescência dela é rapidamente problematizada num único símbolo – e não é à toa que ela distorça a qualidade das imagens da televisão (afinal, aquele é o universo culpado). Cabe, portanto, aos personagens (de novo, completamente desinteressantes) dar vazão a um filme sobre esse universo (que, como confirma o diálogo entre a imagem da TV e a do filme, não é o universo deles). Sofia perde muito da sutileza que vimos nos outros longas dela, a troca de uma vontade cruel de humilhar suas meninas (e menino).

Todas as cenas que evolvem a câmera isolando Emma Watson são torturantes, não só porque a atuação dela vai de encontro com as próprios defeitos da posição de Coppola, mas porque sempre vemos o próprio personagem se expondo ao ridículo. Se antes a diretora nos dava a dimensão do vazio que perturbava o ator em crise de meia-idade vivido por Bill Muray ou o tédio massante que alucinava a Maria Antonieta de Kirsten Dunst, aqui só temos a certeza de um grupo de personagens que são assim porque o estado do mundo que estão inseridos os obriga a serem seduzidos – e isso me parece ainda mais cansativo, quando se nota que todos os personagens são quase iguais.

Em Paranoid Park, Gus Van Sant nos faz dividir um crime com o protagonista (um crime muito mais horrendo do que o das meninas de Bling Ring). E, de maneira alguma, nos deixa julgá-lo. Isso porque ele não quer formar uma opinião sobre a juventude, quer apena problematizar algo que soa como um mistério. Porque eles são assim? Em Bling Ring, Coppola resume as coisas, e tenta botar um ponto final num problema que me parece muito mais complexo – e que talvez envolva não somente o mundo dos personagens, mas eles em si.

Nem tudo saí errado. O talento da moça para filmar a ilusão confortante da plasticidade ainda segue de um ímpeto furioso. Ver aqueles personagens tendo overdoses de roupas, sapatos e joias certamente não é uma experiência agradável. E Coppola filma tudo com uma câmera fria e observadora, sempre voltando ao ritual viciante deles.

As cenas finais também não são fácies de engolir. Sofia mostra os jovens saindo do tribunal, cada um com seu símbolo de comoção e reação ao simulacro – à presença marcial da câmera da TV: um abaixa a cabeça, outra chora, outra saí de cabeça erguida. Se há uma grande análise em Bling Ring, ela se encontra nessa capacidade que a diretora tem de capitar a presença delineadora das imagens da televisão – do vilão claustrofóbico e maquiador do espetáculo. Bling Ring (2012, EUA) de Sofia Coppola. *

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