Amor Pleno

Num dos primeiros planos de To the Wonder vemos o céu de uma cidade emoldurado pelos prédios. A seguir, o registro estrangeiro de uma câmera de celular, se apega aos detalhes de uma estátua que possui um par de asas. Nos 100 minutos de filme, estes talvez sejam os únicos símbolos impelidos de uma força maior – de uma obrigação central com a sua função dentro do filme. O que virá a seguir é um esvaziamento completo dos planos.

Em Árvore da Vida (2011) Malick entupia suas imagens de significações diretas e objetivas. Aqui nada parte de uma justificativa. Se existe algo que está presente em todos os planos de Amor Pleno é uma vontade invisível, uma substância indivisível que não só traduz o filme ao espectador, mas também permite à câmera passear por casas e paisagens sem uma direção específica.

Com dificuldade e às vezes ancorando nos mesmos recursos frágeis do filme anterior, o diretor sugere a presença de algo que não vemos na tela. Como bem observou o André de Leones no blog dele, Malick salta um oceano com um corte, mas o salto não elimina a existência desse oceano. Quando Affleck se separa de McAdams o que vemos é a distância física de seus corpos e a dor estampada no rosto da atriz. O motivo para o rompimento existe, claro; mas ele não ganha espaço algum na tela.

Há, portanto, um segundo filme que existe fora do quadro. Um filme que talvez nos explicasse mais sobre essa força que nos atrai e repele uns dos outros. Mas o diretor está mais preocupado em filmar o contato físico entre os seres humanos. Talvez por isso a cena mais agonizante de To the Wonder nem seja a que Affleck tem um ataque de nervos, mas a que Olga Kurylenko conversa com a filha pelo skype. Existe ali uma perturbação mais intensa do que qualquer questionamento levantado pelo padre vivido por Jarvier Bardem.

Embora o filme siga a obsessão visual de Árvore da Vida (o recurso constante do voice-over somado a imagens da natureza segue desastroso), existe muita vida nos planos. Uma vida fugaz, mas com questões tão antigas e extensas (quase infinitas), que mal cabem nas quatro linhas da tela. Amor Pleno (2012, EUA) de Terrence Malick. ***

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