Frances Ha

O cinema indie sempre sofreu de um senso muito forte de auto-importância. A maior culpa disso talvez seja a disseminação do cinema sensível e vazio do francês Jean-Pierre Jeunet (de filmes como Delicatessen e O fabuloso mundo de Amélie Polain). A rigor, esses filmes de melancolia indie enjaulam os seus heróis num espaço cênico que os diferencia do resto do universo; porque, bem, eles são seres incompreendidos. Eles existem num contexto de “faz de conta” onde seus gestos, mesmo que mínimos, são maiores do que os demais cidadãos vivendo sua rotina. Frances Ha não toma essa postura maniqueísta. Aqui existem artistas e advogados ricos, e ambos são excepcionalmente comuns. O mundo afinal, é só o mundo.

Noah Baumbach não me parece ser um grande cineasta. Os arcos dramáticos de Frances Ha são modestos e estão sempre em um limiar delicado entre o curioso e o bobo. Porém, diferente dos variantes indie, Noah jamais vitimiza sua personagem. A culpa, dessa vez, não é da falta de sensibilidade do mundo. É fundamental perceber que os personagens sabem bem disso, porque a experiência no mundo é unidade máxima de ação em todo cinema de transformação (ou, vá-la, de amadurecimento). E essa experiência precisa ser tóxica ao personagem central e a mais ninguém.

Esse senso de igualdade é movimentado por uma montagem rápida que imprime no filme a presença catalisadora do tempo. Demora alguns segundos para que, dentro do plano, consigamos entender que houve um grande salto temporal de uma cena para a outra. Essa estratégia evita que Noah prenda a narrativa aos desajustes de Frances, aqui importa somente a curiosidade da passagem – e isso fica bem claro na cena em que ela liga pra conversar com os pais no auge do seu desencontro.

Dessa forma ele desencanta a história e retira qualquer chance dela se tornar cool ou fofa (adjetivos geralmente associados ao cinema indie). Ele vai buscar a graça do filme no ímpeto da protagonista, como na ótima cena em que ela corre para sacar dinheiro e pagar o jantar.

Uma sequência como a que Frances corre pela cidade ao som de Modern love do David Bowie pode soar gratuita num filme que busca mais o orgânico do que o teatral (me lembro agora de um cena parecida em Sangue ruim de Leos Carax, que inverte o meu argumento), principalmente por parecer impor alguma proximidade entre o público e a personagem. O mesmo, no entanto, não se pode dizer das situações finais em que ela reata com a melhor amiga, aceita o emprego comum e consegue tomar coragem para criar sua própria apresentação. Ali Frances apenas se movimenta para frente e extraí do mundo a experiência – o veneno que na verdade é o remédio. Frances Ha (2012, França) de Noah Baumbach. ***

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