The Day He Arrives

Existe uma posição extremamente experimentadora quando se fala em filmes de Hong Sang-Soo. Como Ozu, a premissa de um novo roteiro sempre parte das pontas deixadas pelo último. Não só isso, o diretor japonês costumava propor o exato mesmo cenário e arquétipo, trocando apenas algumas peças de lugar. Nessa lógica criativa, cabe ao espectador notar que não há nada mais autoral do que esse empirismo onipotente.

Em questão de desconstruções, The Day He Arrives talvez seja o filme mais extremo do coreano. A cada proposta nova de realização, Sang-Soo dinamita o universo anterior. Se o passado em seus filmes só existe como vontade narrativa (vide o retorno à história do triângulo amoroso em Oki’s Movie), aqui o passado é completamente superado. O que importa é o dia em que ele chegou – é o momento em que o protagonista surge na cidade que o status quo se quebra e permite que a história seja contada.

A funcionalidade do jogo proposto por Sang-soo existe aqui porque trata-se de um mundo de irregularidades (o nosso e o do filme). É justamente o inverso da proeza ensaiada de Holy Motors, onde a surpresa é façanha da interpretação, da beleza da arte. Em The Day He Arrives o movimento é newtoniano: conforme o diretor sugere, os personagens reagem. Da mesma forma, os ciclos tão conhecidos em seu cinema (as cenas de bebedeira, os beijos meio grosseiros, os zoom quase zombeteiros) giram em uma condução quase auto-paródica.

Não há, no entanto, repetição que sobreviva ao material orgânico do filme. A mão divina de Sang-Soo caí delicadamente sobre os personagens. Não temos a sensação de assisti-lo filmando um jogo de xadrez, mas sim brincando com a possibilidade de iludir o destino do protagonista e dar a ele a chance de reinterpretar uma crise, uma problemática – e toda doença de seus filmes envolve o mundo do cinema, o que nunca nos permite deixa o olhar fugir completamente. Sang-Soo reafirma a matéria fílmica a todo momento. A atriz que faz a antiga namorada do protagonista é a mesma que faz a dona do bar e, em certo momento, ele diz: “Ela é igual a ela”. A rima é direta e o tom é quase de piada.

Em todo filme do coreano se destaca a honestidade de seu método, execução e auto-referência, por esse motivo The Day He Arrives talvez seja seu longa mais pessoal. Em nenhum outro se encontra uma cena como a que os estudantes de cinema copiam, sem intenção, o diretor. O cinema não é se não uma repetição de símbolos? E não seria Sang-Soo um pouco copiador de Rohmer e de Ozu?

“Todas as histórias são a mesma”. Esse é um bordão muito conhecido e repetido incansavelmente por quem decide estudar cinema. Sang-Soo tem plena consciência dessa frase e de sua função dentro do próprio ato de se escrever um roteiro de cinema. Em The Day He Arrives essa frase é remoída melancolicamente, como se o retorno ao centro da ficção significasse um retorno solitário e, ao mesmo tempo, romântico. É por isso que ele propõe mudanças, trocas, acertos.

Sendo este um filme de experiências, fica fácil entender porque o que mais fica na cabeça após os muitos encontros e desencontros (e beijos e choros) não são os dramas dos personagens, mas sim as frases que o voice-over utiliza para nos contar que os personagens decidiram ir ao bar Romance – nome que, claro, não está lá por acaso. The Day He Arrives (2010, Coréia do Sul) de Hong Sang-Soo. ***

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