Noturnos

Nocturnes Op. 9, No.2

É trágico. Tão trágico que me levanto da mesa onde o sol queima tímido e vou tomar um copo d’água.

Eu me sinto tão sozinho. É como se dor de criar fizesse parte de cada nota, cada tilintar vergonhoso, jogado, anistiado, torturante. O serial-killer perdoado pelos sonhos enquanto bate sobre as teclas sem juízo.

A paixão quase foge do meu peito. Não há palavra que caiba nessas notas. Não há mulher que corrompa essa melodia. Não há tinta no mundo suficiente para o que eu desejo.  E, mesmo se houvesse, ninguém teria coragem de fazer as canetas que preciso. Não para minha poesia decrépita, minha insatisfação infrutífera, meu deus sem morte e sem pecado.

Minha dor cabe em poucas linhas. É pouca. É da pouca vida que vivi. Do pouco amor que projetei. Não é digna. Ela se perde. Desfalece no ar, pobre e raquítica.

Não é talento que me falta. É a falta. A falta que nunca existiu. A noite que nunca entrou. A morte que segue sendo uma piada de bom gosto.

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