Reflektor

arcade-fire-reflektor-cover_article_story_mainMelodrama estético à parte, o Arcade Fire sempre foi uma banda mais emotiva do que inteligente. Até mesmo em Funeral que se constrói totalmente numa encenação complexa e milimetricamente desenhada, existia um fluxo de imagens que reforçavam a ideia de que esta era sempre (e somente) uma boa banda de rock. Talvez seja culpa da influência do U2, não sei, mas está aí uma banda que não trata nenhum tema como um paradigma caseiro. Se existe um sentimento, ele tem que ser o maior do mundo.

Lá em Joan of Arc, Butler canta: “I am the one who will follow you, you my Joan of Arc”. Existe uma tentativa clara de justificar e corrigir os erros do mundo. É como se eles tentassem dizer que o problema não é deles (ou nosso), mas desse mundinho cruel – o mesmo mundinho que queimou Joana d’Arc e anos depois a transformou em santa. Como o mais sacanas dos réus, o Arcade Fire é uma banda que se vitimiza. “And if you’re the judge, then what is our crime?” perguntam em Here Comes the Night Time.

No entanto, me conforta saber que existe aqui em Reflektor uma banda ainda totalmente indecisa, irritada com os limites da própria música. Isso além de saudável, mantém até mesmo quem detesta tudo que eles fizeram sempre de olho nas tentativas dos caras. Mas vamos lá, não é só com ambição que se constrói uma pirâmide.

Se por um lado este é o disco que a banda mais experimenta com os sons – há faixas inéditas na discografia deles como Here Comes Your Night (que se ajusta direitinho ao lado das canções de world music do Vampire Weekend), pós-punk para estádios e até ambient techno (em Awful Sound) – deve ser também o disco em que o song-writing menos brilha. Em The Suburbs (2010), mesmo nas faixas mais diretas como Modern Man, existia um trabalho minucioso de composição e interpretação. Aliás, citar essa faixa cai como uma luva, porque as piores faixas de Reflektor (Flashbulb Eyes, Normal Person, We Exist) soam como se fossem rascunhos incompletos de soft rock, torcendo por uma dose dos anabolizantes de Funeral.

Não há como negar, no entanto, que quando a banda se deixa levar pelas guitarras truculentas de sempre, eles ainda são capazes de encontrar um som maligno, um rock n’ roll incorrigível e imaturo que se deixa levar por ganchos inesperados e nada óbvios. O melhor exemplo é a grande It’s Never Over (Oh Orpheus) que é Joy Division ao modo de Achtung Baby, com um gancho gorduroso de disco. Outra, Afterlife, começa delicada (construída com uma melodia quase primitiva) e logo se torna um furacão de sintetizadores e refrões para estádio.

Talvez esteja faltando o tipo de projeto pensado que fez de Funeral uma peça tão íntima quanto peculiar. Reflektor mira para muitos gêneros e subgêneros, como se a emular a sensação de caos que sentimos hoje ao ouvir música pop e sermos cada vez mais bombardeados por mil sonoridades. Há algo de genial nesse conceito que ajuda a entender a boa repercussão do álbum entre vários amigos e críticos de música. Esse reflexo caótico tão debatido na faixa título, quem sabe, produza efeitos diversos e complexos demais para uma mera resenha de blog entender. Devem existir vários motivos para ele ser admirado e é isso que importa afinal.

“If you’re looking for help, well just try looking inside” eles nos ensinam, e é somente isso que o disco defende em absoluto. Reflektor (2013, EUA) – Arcade Fire. **

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