Os Melhores Discos de 2013

15. Days Are Gone – Haim

“Honey, I’m not your honey pie” (My Song 5)

Não sei se podemos culpar os pais dessas três irmãs por tê-las criado com os maneirismos do pop de papai. Por sorte elas absorveram mais o lado R&B e operam esse pequeno disco com a noção de que existe um ridículo muito claro nos riffs de guitarra – e aí não importa se elas preferem o Fleetwood Mac ao The Strokes. Mas é um disco de ganchos e levadas melódicas. E também sobre cantar alegre, cantar triste, cantar rápido, cantar gritando, cantar berrando. Se existe um prazer indecente em 2013, certamente ele mora na possibilidade de apreciar um disco tão óbvio quanto esse. Ouça: Falling.

14. Tomorrow’s Harvest – Boards of Canada

Não se deixe levar por aqueles que afirmam que o Boards of Canada fez apenas outro disco do Boards of Canada. Mais distante do ambient techno que marcou os anos 90 com Music Has the Right to Children, Tomorrow’s Harvest se aproxima mais da vertente de IDM no seu som. Menos levado por beats e mais centrado na melodia, o novo petardo continua com o mesmo efeito: a capacidade de nos levar para muito longe, onde os argumentos sempre perdem o sentido. Ouça: Reach For the Dead.

13. The Bones of What You Believe – Chvrches

“I can feed your dirty mind” (Lies)

Em 2013 tivemos poucas vocalista tão desbravadoras quanto Lauren Mayberry (e o manifesto feminista dela no The Guardian reforça isso). Quando a mocinha vence os beats agitados e os sintetizadores esmagadores da dupla de produtores, a sensação é de ouvir toda tradição do synthpop sendo homenageada instantaneamente. Do Depeche Mode ao Cut Copy. Do dançante ao confessional. De Tether a Night Sky. O Chvrches nos dá literalmente os ossos do que crescemos acreditando ser música para dançar e, ao mesmo tempo, se emocionar. Ouça: Gun.

12. Engravings – Forest Swords

O maior épico do ano é daquele tipo de obra que não te oferece a mão. O esforço, no entanto, é recompensado quando toda a estranheza se transforma numa beleza plácida. Metade das canções pairam no ar como mistérios suspensos. The Weight of Gold é o caminho para entender: uma ópera-eletrônica de psicodelia, dub e ambient. Impressionante mesmo é a dimensão que canções tão simples acabam tomando – o antídoto, por tanto, para a precisão metódica e “complexa” que assola os subgêneros da eletrônica. Ouça: The Weight of Gold.

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11. Slow Focus – Fuck Buttons

No ano que continuamos sem saber absolutamente nada sobre o Fuck Buttons, eles fazem outra obra completamente incompreensível. Às vezes prog-rock, às vezes noise, às vezes só desastre atrás de desastre. Slow Focus tenta nos aproximar um pouco mais do processo criativo deles – nos dando canções até estáveis -, mas é curioso como quanto mais eu ouço esse disco, mais bizarramente incontornável ele me parece. Ouça: Hidden XS.

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10. Wakin On a Pretty Daze – Kurt Vile

“How can I even look myself in the mirror, then again, why would I?” (Shame Chamber)

Depois de passar a tarde deitado no sofá, Kurt Vile se levanta por 50 minutos para dar uma volta no sol. O resultado é o disco mais arejado e detalhista que ele escreveu. Mais afetado ao rock delirante de um Neil Young (e já sem tantos tiques dylanescos), o sujeito conseguiu um álbum mais rico e menos centrado na sua própria imagem de preguiçoso número um. Wakin On a Pretty Daze é um exercício paciente de explosão e retração que, nos melhores momentos (Shame Chamber acima de todas), nos lembra que o rock pode ser assim: narcisista, exagerado, mas imensamente catártico. Ouça: Shame Chamber.

9. Jai Paul – Jai Paul

“But in the company of kings, I learnt the wisdom of all things” (Untitled #2)

Quem sabe se esta coletânea tivesse saído exatamente como Jai Paul esperava – de forma não ilegal e talvez em hi-fi – essas canções tivessem perdido a sensação de frescor e espontaneidade que transpiram. Em lo-fi arriscado – numa época que quase ninguém mais se importa com essa forma de gravação – este conjunto de rascunhos de synthpop funciona como um registro íntimo sobre as imperfeições que fazem o pop tão perfeito. A pergunta que não me sai da cabeça: canções tão incompletas tem o direto de soarem tão duradouras como essas? O mundo cabe na palma da mão de Jai Paul. Ouça: Str8 Outta Mumbai.

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8. Yeezus – Kanye West

“Y’all better quit playing with god” (I Am a God)

Só sendo muito cínico para desviar de Kanye West em pleno 2013. Depois de subverter todas as formas com o álbum de 2010, West resolveu fazer o mais explícito: um disco de noise, despejando todo tipo de crítica e revolta – dos riquinhos vazios até os obcecados pela vida alheia. Num curto-circuito entre a vida cotidiana de figura pública e a alucinação de grandeza, West escreve o disco mais esquizofrênico da década. Quem diria que deus teria tantos dramas humanos? Ouça: Blood on the Leaves.

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7. Wenu Wenu – Omar Souleyman

Omar sempre foi uma estrela da música síria capaz de despertar a curiosidade dos olhares estrangeiros. O que surpreende em Wenu Wenu é que mesmo mantendo sua composição dentro dos seus padrões culturais (ele é conhecido por tocar em casamentos em seu país) a produção de Kieren Gibbs (o Four Tet) consegue reforçar a genialidade melódica e o perfeccionismo com que Omar e seus músicos exploram cada instrumento. Um projeto que podia ter sido tratado como estranho (por pertencer a uma cultura distante da nossa), mas acaba soando apenas como um grande disco pop. Ouça: Mawal Jamar.

6. R Plus Seven – Oneohtrix Point Never

Lopatin faz música que se assemelha ao tipo de processo interpretativo que realizamos ao tentar imaginar as imagens incitadas por um livro. R Plus Seven é o capítulo desse empreitada em que ele deixa essas imagens serem envenenadas por uma pitada de dance-music. Com um uso constante de teclados atmosféricos (Zebra), samplers curtos de voz (Still Life) e órgãos que caem do céu (as gêmeas Boring Angel e Chrome Country), Lopatin conseguiu seu disco mais instável – e talvez por isso o seu mais provocador. Um mausoléu mal iluminado que nos surpreende a cada porta que decidimos abrir. Ouça: Chrome Country.

5. Shaking the Habitual – The Knife

“Let’s talk about gender, baby, let’s talk about you and me” (Full of Fire)

Karin Dreijer se especializou em parir monstros. Fever Ray de 2010 era um disco de trip-hop que nunca deixava essas criaturas saltaram na frente das câmeras. Em Shaking the Habitual ela decide fazer uma exposição das suas crias. Como se experimentasse com uma sonoridade quase esquecida (um synthpop rústico, pontiagudo mesmo, que chama atenção mais aos instrumentos perdidos na gravação do que aos beats), os irmãos do Knife colocam um desafio para os ouvintes. A ruptura abrupta com uma cultura de synthpop que os fez famosos, também se reflete nas letras, que invocam a divisão dos gêneros e a complexidade da sexualidade como se fosse o maior dos dilemas políticos – e hoje não é? Isso, claro, num disco de duas horas de música de horror, com os tambores que sobraram de Fever Ray levando os sintetizadores de Silent Shout (2005) a uma aparência de alucinação que faz as experiências antigas da banda parecerem filmes de criança. Karin pariu, enfim, o mais furioso de seus monstros. Ouça: Without You My Life Would Be Boring.

4. The 20/20 Experience – Justin Timberlake

“Shake it, like you got something to prove” (Let the Groove Get In)

Ouvir The 20/20 Experience não é retornar ao R&B e a soul-music do passado (como acontecia nos discos anteriores de Timberlake), mas é ouvir uma música natural, às vezes até correta, utilizando elementos mais vastos – falsettos (Pusher Love Girl) e arranjos vocais excêntricos (Tunnel Vision), sabores orientais (Don’t Hold the Wall), instrumentos de sopro (Let the Groove Get In) e até uma drum-machine de palmas (Mirrors) – para revitalizar gêneros com a inocência de quem acaba de conhecer a discografia do Prince. A grande diferença entre Timberlake e os demais cantores “super-sensíveis” que assolam o pop, é que o sujeito tem a alma de um entertainer e faz cada canção uma espécie de encenação musical, com início, clímax e desfecho; não à toa as faixas cubram cerca de 8 minutos cada uma – onde mais você acharia um disco pop tão descrente das certezas do pop? Ouça: Mirrors.

3. Modern Vampires of The City – Vampire Weekend

“Every one is dying but, girl, you’re not old yet” (Step)

O Vampire Weekend pode ter aberto mão de um carnaval de referências, mas este é provavelmente o melhor momento das composições de Batmanglij e Koenig. Fazendo música com quase nada – mais pianos e menos samplers, menos cantoria e mais catarse – é mais do que natural que o que surja com mais força na superfície é uma sensação quase tímida de maturidade. Antes era tudo ou nada: o mundo ou a morte. Agora, com alguma idade, eles se deixam contaminar por ideias cada vez menos sensacionalista do que é uma canção – e aí o porquê do ritmo quase minimalista e uma capacidade de economia invejável.

Eles conseguiram enfim um disco sobre o mundo que soa como se tivesse sido gravado no jardim de casa. Mais velhos, com sua melancolia burguesa tinindo, o Vampire Weekend parece ter enfim achado uma desculpa para se importar com coisas realmente importantes. Sem se esconder nunca, Modern Vampires of the City é um disco sobre como se interpretar o tempo em diversas situações: do fim de um relacionamento aos erros feitos no trabalho, chegando até a morte. O incontornável, no entanto, é tratado como uma essencial demonstração de que é preciso ir no seu tempo – mesmo que ele seja escasso e fatal. Ouça: Ya Hey.

2. Loud City Song – Julia Holter

“This time my stubborn mind will take his love seriously” (He’s Running Through My Eyes)

Num dos melhores momentos de o Ano Passado em Marienbad (filme de 1961 dirigido por Alain Resnais, que a própria Holter referenciou no disco anterior) a câmera paira sobre a cama onde está Delphine Seyrig num longo vestido de plumas. Naquele momento específico do filme, a sensação é de ver uma imagem derretendo na frente seus olhos, como se todo o passado se desfizesse em partículas menores de imagem. Loud City Song é isso numa sintonia frequente de construção e perdição. Holter cria atmosferas estáveis com ideias de ambient sendo frequentemente contaminadas por arranjos que perturbam a perfeição instaurada.

Toda essa sensibilidade visual reforça o que Holter tem de mais apelativo: uma capacidade de nos aprisionar numa selva de sonoridades e timbres distintos. Se antes a opção dela era pela frieza experimentadora, agora a emoção fala mais alto. Deixando o seu vocal quase doce introduzir um tom pop ao que antes era uma superfície fria, Julia realiza o disco mais sentimental de 2013. Daqueles que nos fazem olhar de um forma completamente nova para uma artista que há apenas um ano parecia uma musa de mármore.  Mas está aí o que mais aproxima Julia de Resnais, o melodrama e o sentimentalismo estão lá, mas sempre a serviço de um construção externa muito mais complexa. Ouça: Horns Surronding Me.

1. The Inheritors – James Holden

James Holden faz eletrônica partindo de diversos sons presentes nos mais variados sub-gêneros, utilizando uma base melódica que acabou lhe dando a alcunha de música pastoral. Nada disso, no entanto, explica como o sujeito consegue introduzir sons desconcertantes em canções já bastante castigadas e, ainda assim, alcançar uma dimensão quase receptiva. As duas principais faixas do disco, Renata e The Caterpillar’s Experience, podiam ser faixas de dance-music se não ganhassem, conforme progridem, cada vez mais peso. E nem falo da progressão didática do pós-rock, mas sim um crescimento nada óbvio, que aceita novos gêneros, novas variações melódicas, sempre empurrando a canção ao limiar do histérico.

The Inheritors é um álbum nada material, nada nostálgico, mas que, nos seus momentos mais intensos, causa a sensação de um retorno emotivo a um lugar irreconhecível. Com suas batidas incorretas e tortas, seus sons luminosos (e ao mesmo tempo bizarros), suas melodias nada confortantes, seus desconcertos de volume, seus barulhos ensurdecedores e seu desejo infinito de expandir os limites da canção. Tudo isso faz desse disco de James Holden a experiência mais intensa de 2013. Um disco sobre o humano perdido num universo de estranheza que, aos poucos, se aprende a chamar de casa. Ouça: Renata.

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