O limite do real

Ler “O País das Neves”, recém órfão de “100 anos de Solidão”, vem sendo uma experiência curiosa. Onde Garcia Marquez sufocava o romantismo com sua dureza, Kawabata reforça o lirismo, talvez porque não sobre muito mais aos seus personagens.  Não há um carnaval de eventos como o ocorria em Macondo, no país das neves só temos homens maus, geishas e montanhas. Essa imensidão do vazio faz com que Kawabata force o eixo real até que ele atinja sua completa distorção.

O limite do real, no entanto, é sempre transposto por reflexos (sejam sombras, espelhos ou a pura mística do ar frio das montanhas).

Assim que o trem se moveu, o vidro da sala de espera clareou, e o rosto de Komako pairou brilhante em meio a essa luz, vindo a se apagar num instante. Ele se mostrava igual ao brilho daquele momento no espelho da neve matutina, as maçãs do rosto bem vermelhas. Para Shimamura, essa era a cor que ultrapassava o limite da realidade.

(p. 77)

Os reflexos, no entanto, não são sozinhos capazes de despertar essa confusão mágica nos olhos do protagonista. Há sempre um rosto feminino se destacando e livrando Shimamura do próprio egoísmo sentimental e visual. Kawabata é descreve com muita polidez, mas sempre alcança um dimensão onírica, quase como se descrevesse uma pintura impressionista.

Mesmo depois de deixar a casa, Shimamura continuava sentindo o olhar de Yoko ardendo diante dele. Era um olhar frio como uma chama longínqua, pois ele se lembrava de que, enquanto olhava o reflexo de Yoko o vidro da janela do trem, as chamas das montanhas e das matas passavam pelo outro lado do resto dela e que, quando uma daquelas chamas sobrepôs- se à sua pupila formando uma claridade flamejante, Shimamura tremeu diante de sua beleza inexprimível. Ao recordar-se disso, lembrou-se também da face vermelha de Komako, que surgira no meio da neve tomando todo o espelho.

(p. 53)

Kawabata esta sempre lidando com a crise do olhar egoísta dos homens sob as mulheres. Seu protagonista pode ser capaz de expor um olhar rico e fantástico do universo que se insere, porém, jamais é capaz de se livrar de suas pequenas crueldades. A imagem bela e pura das mulheres sempre vence no final.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s