Secretamente, estou do seu lado

llewyn

1. Acho bem necessário separar um tempo do meu dia para entrar em acordo comigo mesmo. Estou fazendo tudo certo? Estou acreditando nas coisas certas? As respostas costumam ser sempre as mesmas, mas cada vez mais é preciso repeti-las. Não é questão de incerteza ou de qualquer outra paranoia – não mesmo. O motivo é mais simples: compreendi que é essencial perceber que, apesar das torturas que praticamos contra nós mesmos, estamos sempre do nosso lado.

2. A partir daí, esse processo de “auto assistência”, passa a dialogar no limiar entre genuíno e o mascarado. É preciso, claro, desviar das falácias e das construções exageradas. Evitar se tornar “a própria visão platônica de si mesmo” como o narrador de O Grande Gatsby caracteriza o protagonista do livro.

3. Isso, por outro lado, me leva a outra problemática: como evitar o platônico? Projetar ideias sensacionais e gigantes para o futuro não é, em si, um grande platonismo? A nossa visão futura de nós mesmos não é uma viagem egocêntrica rumo ao perfeccionismo? Não imaginamos estar com emprego certo, a pessoa certa e ter feito escolhas certas, toda vez que fazemos uma projeção?

4. As perguntas são inevitáveis e não possuem respostas muito justas. Mas me levam a percepção de que projetos de perfeição são em si a própria manifestação da nossa arrogância e imperfeição, mas com um bom propósito. O filme mais recente dos irmãos Coen (o ótimo Inside Llewyn Davis, que ilustra o post e tem nesse gato uma bela e simplória metáfora para a vida) retrata a confusão que existe entre a esfera da perfeição (a idealização) e do ordinário (a vida comum que rebate nossos platonismos). Mas, como só a arte pode fazer, conclui que há uma beleza (às vezes ingrata, é verdade) em se lançar ao perfeito.

5. Cabe repetir o comentário do item 1: estamos do nosso lado. Mesmo que seja assim, secretamente, anabolizando planos surreais. Que talvez não se concretizem. Que talvez se concretizem. Não importa, porque o fundamental é perceber que existe uma parte de nós que consegue unir a fatalidade ordinária do cotidiano e junta-la à alucinação química dos sentimentos. Está lá no verso de Sweet Spot, faixa nova do Wild Beasts: “Between the flesh and the fondest wrong there is a gardless state where the real and the dream may consummate”.

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