O tempo dos fortes

Presente tense (2014), quarto disco do Wild Beasts.

Presente Tense é um disco sobre sobrevivência. Ou, melhor dizendo, sobre como achar a sua forma de sobreviver.

Os álbuns desta (agora) grande banda inglesa sempre nos forneceram essa matriz conceitual logo de cara, quase como se fosse a parte fundamental da música deles. Two dancers (2009) era um disco sobre relacionamentos nada simples. Smother (2011), sobre o fundo do poço. O novo surge como uma luz no final do túnel: “um lugar onde o real e o sonho se encontram” como cantam em Sweet spot.

Talvez seja um argumento fácil dizer que este é disco mais completo deles, visto que Two Dancers ainda guarda os momentos mais criativos; mas é essencial perceber sua arquitetura dedicada.

Ouvi-lo, num primeiro momento, é dar de cara com uma quantidade considerável de temas: identidade (Wanderlust), sexo (Nature boy), corpo e mente (Mecca), liderança (A dog’s life). O ouvinte mais apressado pode acabar acusando essa variedade de “camuflagem” para o vazio. Leva tempo para perceber que, diferente do masoquismo pedante de Smother, Presente tense apresenta respostas ao invés de insistir nas perguntas.

Existe uma clara tentativa de fixar ideias sobre a vida (e sobre a música também, claro) que não pertencem ao itinerário do indie rock. Em Daughters, Tom Fleming chega a dizer sem nenhum pé atrás: “Jesus era uma mulher”. Se o mundo é um mosaico (como a capa ilustra), porque não?

Se antes podiamos acusá-los de operar aquela melancolia tipicamente inglesa, agora não devemos deixar de perceber a serenidade que muitas dessas letras passam. “Quando se foi, se foi, não me faça sofrer por isso” incitam em Sweet spot. Ainda há decepção – porque afinal o mundo é decepcionante -, mas nada é ponderado gratuitamente.

Uma das últimas faixas se chama New life, e ela conta, talvez, com o momento mais emocionante da música de 2014 – quando Fleming, do topo da melodia, clama: “cantem pulmões, cantem!”. Estamos falando, portanto, de um disco que olha a condição da vida sem martirizar os pesares que a acompanham.

Se uma grande parcela das bandas de indie ainda se prendem à melancolia – já tão inerente ao gênero -, o Wild Beasts sai pela tangente com uma obra de pura beleza. Um disco otimista e vívido. Um disco que se contenta com a existência. Um disco sobre os fortes, sobre os que sobreviveram para contar a história.

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