O Imigrante – James Gray

Pra quem começou a acompanhar James Gray a partir de Amantes (2008) – como eu -, talvez fique difícil relacionar tão diretamente o cinema dele com as fitas policiais que provavelmente o influenciaram – aí só assistindo Os Donos da Noite (2007). No entanto, independente de qual filme se parta para conhecer sua curta filmografia, sempre se esbarrará em uma característica intrínseca a todos: o melodrama.

Essa parece ser a função fundamental da construção dramática dele. Nesse sentido, Gray se prova um genuíno cineasta americano, retornando ao essencial, ao que reforça a matriz da dramaturgia do cinema. É por isso que quase todos que assistem este novo filme dele, pensam logo em Lírios Partidos (1919). Personagens e seus sentimentos, isso é suficiente.

Gray volta a incorporar em Joaquin Phoenix todo o desgaste de que seu cinema é feito; mas, pela primeira vez, seu olhar principal é posicionado por uma ótica feminina. Tanto Cotillard, quanto Phoenix, interpretam os mais simples personagens que ele escreveu. É dessa simplicidade, no entanto, que surge todo o caos emocional que o filme incita.

Como já tínhamos visto em Amantes, estamos diante de uma história de pessoas que tentam sobreviver em mundo que rejeita seus mínimos passos – a primeira imagem do filme é uma tomada da Estátua da Liberdade de costas. Porém, diferente do que acontecia no filme anterior, aqui essa incapacidade emerge, saindo diretamente da boca dos personagens. Cottilard chega a perguntar explicitamente: “É um pecado tentar sobreviver?”.

O fundamental, no fim das contas, é o trabalho delicado de Gray para desenhar o combate emocional intermitente entre Phoenix e a protagonista. O resultado é um desfecho que somatiza todo impacto do seu cinema, onde os dois personagens dividem um momento de compaixão quase incômoda – praticamente um aperfeiçoamento do final de Amantes.

O Imigrante acaba soando como o longa fundamental da carreira de James Gray até aqui. Nele fica muito claro o difícil equilíbrio que o diretor opera, sempre estabelecendo um contraste entre as características superficiais dos personagens e o inchaço emocional que a trama desenrola. Os filmes dele parecem, no papel, ser de um pragmatismo raro. Essa aparência de algo concreto demais, no entanto, não explica a sensação de assistir imagens tão densas, que parecem pesar milhões de quilos. Trata-se de um filme só, mas parecem duzentos.

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