Água fria

Lost in the Dream (2014), terceiro disco do The War on Drugs

A essa altura já passou a ser mais interessante falar da repercussão do álbum do que dele em si. Como responder a uma chuva de resenhas que veem em Lost in the Dream o passo gigante de uma banda que, há dois anos, soava como apenas mais um filho de Born to Run? Da comoção alheia é possível retirar o que está no âmago desse álbum – que apesar de nada brilhante, é sim, de alguma forma, especial. Estamos falando de um disco que retoma a sensibilidade de uma geração que se via dentro de um grande sonho, e a reinterpreta pelos olhos de uma nova geração menos acomodada com seus platonismos.

Até aí nada de diferente de Wakin’ on a Pretty Daze do Kurt Vile (que inclusive é um dos membros fundadores do War on Drugs). Estamos falando de dois compositores muito semelhantes, que escrevem letras sobre homens preguiçosos, ao mesmo tempo que inconformados com a falta de graça que o “novo mundo” lhes oferece. São, Adam e Kurt, dois românticos em pele de vagabundos. E aí está o porquê deles apelarem para tanta gente diferente. Existe na música deles uma capacidade estranha de atingir pessoas que se dizem céticas diante da vida, mas que continuam a fantasiar o amor como se fosse a única solução para todo o caos.

Não à toa, Lost in the Dream, lembre muito o Bob Dylan de Blood on the Tracks. Este que parece ser o disco essencial para todo adolescente que cresceu achando que entenderia o fim de um relacionamento com simplicidade, e foi descobrir mais tarde que nada é simples o suficiente. Uma das faixas do álbum tem o nome de Under the Pressure, outra An Ocean in Between the Waves, uma é mais explícita ainda, chama-se Eyes to the Wind. O peso do clássico de 1975 recaí sobre muitas dessas músicas de uma forma bem crua, quase como se a banda não se importasse em cair no ridículo.

Em Red Eyes, incitam: “Baby don’t mind. Even on a lie you can have it your way”. Depois, no ápice de An Ocean in Between the Waves, perguntam: “I am in my finest hour, can I be more than just a fool?”. E é o suficiente para o disco fazer sentido (e fazer o ouvinte esquecer que umas quatro faixas soam completamente irrelevantes): dentro do sonho, em que momento deixamos de ser sonhadores e passamos a ser apenas uns nostálgicos?

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