O falso submarino

Single: Girl/Sleep Sound (2014) do Jamie XX

Os aficionados pelo The XX talvez ainda alimentem uma relutância com a carreira solo do líder da banda. Não os culpo. Perto da sutileza melódica do álbum de estreia (XX, de 2009), We’re New Here (releitura do álbum de despedida de Gil Scott Heron) parece uma esfinge. Mais fácil é esquecer da estreia, e focar no segundo álbum. Mesmo para quem não gosta, Coexist (2012), serve melhor ao propósito de entender Jamie fora dos XX. Talvez por também parecer uma esfinge. São dois discos que cobram do ouvinte uma certa atenção às referências, aos sons que circulam nas entrelinhas – muito diferente do calor enfastiado de uma faixa como Islands, ou Heart Skipped a Beat.

Curiosamente, o processo de criação nesses dois momentos aparenta ser menos exigente. Beat e voz. Dance-music e emoção. Mas o que dizer de uma malha sonora que serviu de sampler até pro Drake? Estamos diante de uma incógnita: é pop ou não? Os mais espertos vão dizer que sim, Jamie faz música pop (e das boas). Os mais recatados vão argumentar que sempre existe algo de irregular e estranho em sua música – e isso, por si só, já seria suficiente para não colocá-lo, por exemplo, na mesma linha de um produtor de hip-hop. Bobagem, Jamie é pop e esse novo single deixa isso mais do que claro.

Ok, o rapaz está muito mais ligado ao que acontece no underground da música eletrônica do que aos grandes charts. Mas vale lembrar que estamos falando de um cara que usa traços de future garage, dubstep e até balearic beat em faixas com temas românticos e refrões assobiáveis. Seria tão menos pop suprimir os refrões e apostar no desgaste dos sons? Afinal, não são exatamente os mesmos sons? É só ver o remix que ele fez de Sunset (faixa do próprio The XX): foi se embora a precisão de uma canção pop, ficou a vontade de sempre encontrar o clímax mais intenso para a melodia. Menos pop? Eu não acho.

Girl é o reflexo mais direto disso. E pode lembrar um pouco o mesmo processo criativo de um Burial. A emoção é tirada da frase sampleada – um simples “I want your love”. Some isso ao contorno de alguma nostalgia – aqui os anos 80, com levadas de baixo e synthpop. Finalize com uma sensibilidade para beats que funcionam no limiar entre o dançante e o sensorial. Sleep Sound, por outro lado, é mais agressiva. Voltando ao balearic beat, Jamie cria um jogo circular de beats e pequenas repetições de sons, que vai encantar os fãs do Four Tet (e talvez os do The Field).

Difícil ver faixas mais corajosas do que essas na carreira dele. Mesmo operando um pequeno milagre na crueza de XX, esse pântano que mistura sensibilidades muito diferentes (pop e sub sonoridades, retrô e moderno) soa como um passo enorme a frente. Um forte indício de que, se continuar assim, Jamie não vai deixar muito a dever ao Burial: parece vir das profundezas, mas tem pedigree de música pop.

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