Por onde anda Joanna? ou Sobre o tempo das coisas

Eu não escrevo mais sobre música. Sinto que não tenho nem mais vontade e nem mais gabarito para isso. Agora, quase sem tempo, não ouço mais do que dois discos por mês. Entretanto, não consigo deixar de acompanhar as principais revistas de música. Está aí um hábito do qual não consigo escapar. Ainda tenho curiosidade pela indústria, mesmo tendo preguiça para metade dos críticos que continuam se achando mais relevantes do que o que se escuta nos fones de ouvido. Minha atenção acaba se voltado para as novidades de artistas que conheci e aprendi a admirar durante a época que escrevia frequentemente sobre eles.

Hoje lembrei que quatro anos se passaram desde o lançamento de “Have one on me” da Joanna Newsom. Tempo que, admito, é pouco para conseguir desvendar completamente um disco de três horas, 18 faixas e um conceito nada claro. Sei lá quantas vezes o ouvi. Não foram poucas – antigamente eu tinha muito tempo livre. Mas talvez não tenham sido muitas. Cem audições conseguem dar a dimensão para faixas muito longas que cobram do ouvinte não só atenção mas uma certa entrega, uma cumplicidade com as histórias narradas? Meu pai que ouviu “Highway 61 Revisited” do Bob Dylan mais de mil vezes me recriminaria, eu e minhas míseras cem audições.

Acho que não ouvi “Easy” o suficiente para compreender a fragilidade do narrador. Ou “Good Intentions Paving Company” para absorver todos os detalhes das vozes repetidas que se mesclam. Ou “In California” para entender porque Joanna compara a fronteira entre os Estados Unidos e o México com seu coração – e como isso não soa nada piegas quando ela canta. Jamais parei para pensar porque exatamente ela decidiu colocar um som de cuco quando o disco chega na marca de uma hora. Há muitos detalhes que só notei superficialmente. E há, com certeza, outros que nem faço ideia que existem.

No entanto, não vou negar, cobro com egoísmo uma continuação. E cobro de uma artista que pode até não ser prolixa como um Thom Yorke, mas que nunca ficou muito tempo sem apresentar material novo. Definitivamente, a geração que passou a acompanhar música com a internet não merece a qualidade dos novos fones e aparelhos sons. Não gastamos tempo suficiente ouvindo música.

Não acompanho mais música como fazia antigamente (em 2011, por exemplo, ouvi 400 álbuns novos lançados naquele ano), ainda assim acho que dou pouco valor ao que consigo ouvir. E, de fora, vejo amigos que ainda escrevem e se importam um pouquinho com a indústria ouvindo quase mil discos por ano. Isso é produtivo por um lado, porém definitivamente não é justo com a música. Quantas vezes eu parei só eu e um lançamento novo? Poucas, talvez duas ou três vezes (me lembro de ouvir com alguma dedicação o álbum de 2011 do James Blake). Olho para vários discos que admiro com certa vergonha. Acho que não conheço vocês o suficiente, eu diria se eles me ouvissem.

[…]

Joanna anda mesmo sumida. Dizem que gravou umas faixas novas. Não sei. Sei que depois de um ano botei “Have one on me” para rodar e dei alguma atenção para ele. Não tinha percebi o quão altas eram as notas que ela atingia em “Kingfisher”. Nem havia percebido o tom melodramático de “You and me, Bess”. E nem que “Does Not Suffice”, o encerramento, talvez seja um das canções mais simples dela – e muito menos tinha reparado na clara aproximação com “Blue” da Joni Mitchell. Céus! como sempre achei Joanna muito pragmática, nunca havia reparado o quão romântico é este álbum.

O velho disco ainda tem muita história para me contar. E eu querendo novidade…

Não tive mais cara de procurar discos novos. Não hoje. Não agora. Fiquei querendo mesmo um reencontro com 2010, com a sensação de descobrir outra vez esse que segue sendo um dos meus monumentos. Um dos discos que pretendo mostrar para meus filhos depois de uma sessão de “Amor à flor da pele”, logo após recomendar que eles leiam “Cem anos de solidão”. É uma daquelas obras que pretendo ouvir todo domingo de manhã quando for mais velho para poder fazer um comentário nostálgico sobre como o tempo passa: como ele passa rápido, como ele passa atropelando tudo, às vezes até ele próprio.

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