Só algumas semanas

Ela disse: “Só se passaram algumas semanas”. E eu enxerguei o silêncio. Não era qualquer silêncio, no entanto; era um velho conhecido que costumava se instalar toda vez que nada acontecia. Eu quis corrigir a fala dela. “Se passaram quase muitos meses” diria, mesmo sem entender o que aquele “quase” significava. “Dois, três, talvez até cinco” completaria e ela me encararia por longos minutos com uma expressão irritantemente lúcida.

“Às vezes parece que eu estou falando ao contrário” eu deveria dizer. Não disse, claro. “As coisas passam” ela resmungou abaixando a cabeça e rindo baixo. A situação tinha acabado de tomar outro caminho, aquele comentário era convite dela para que eu me expressasse. Quase decidi ficar calado, teimoso, orgulhoso. Assustado. Até que, enfim, resolvi falar:

– Nenhuma semana passou.

Ela não riu dessa vez.

– Ainda estou preso naquele primeiro dia quando o mundo parou e eu resolvi descer.

(imagem que ilustra: “O Demônio das Onze Horas“, 1965, Godard)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s