Nosso inverno

Era um cercado de pouco mais de cinco centímetros quadrados. Escuro e frio, quase totalmente estéril. Crescia, no entanto, um pequeno novelo verde de onde brotava uma flor chamuscada. Ele entrou na morada vestindo um alinhado uniforme negro e se sentou na cadeira – o único móvel que restava. A janela estava aberta e o vento parecia soprar por entre os raios de sol – de onde estava era quase como se a luz desdenhasse orgulhosamente do ar.

Com os olhos fechados, o homem se lembrou de um lugar distante, de um dia que talvez nunca tivesse existido. No fundo, ele ouviu uma música que talvez nunca tivesse sido tocada. E viu as primeiras marcas do inverno chegando nas calhas das casas. O sol branco fisgando o último suspiro quente em seu peito, as sombras das magras árvores do frio já sem poder esconder os sentimentos de ninguém.

Foi então que abriu os olhos e respirou muito fundo, como se a volta a superfície fosse na verdade um mergulho. E, entrando de novo na necessária realidade, lembrou-se que – salve o derradeiro – após todo longo inverno sempre vem uma nova estação.

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