Sobre os ponteiros do relógio

Esses dias me lembrei de um texto antigo escrito por um amigo que começava mais ou menos assim: “Os ponteiros do relógio de tão vastos já nem existem mais”. Na época não entendi muito bem o que aquilo queria dizer, mas me parecia algo muito vago – ou tão obscuro que chegava a ser idiota. De fato, creio que nunca compreendi muito bem os textos dele. No entanto, me peguei pensando bastante sobre o sentido dessa frase esses dias.

O texto tratava da história de um velho que decidia narrar um conto para o neto depois de despertá-lo na madrugada. (Confesso que ideia do avô acordando no meio da noite ansioso para contar algo ao neto me parecia mais fantástico do que a narrativa em si). O que importa é que a ideia, afinal, fez sentido para mim. O tempo para aquele homem seguia já tão descontrolado que não havia como esperar nem mesmo para as coisas mais triviais.

Passo boa parte do meu dia medindo o tempo, olhando com frequência o ponteiro do relógio, criando ora metas curtas, ora longas, tentando aproveitar ao máximo o movimento arbitrário das horas. Não há vastidão alguma nos meus ponteiros. Pelo contrário. O que então me fez voltar àquela frase?

Talvez seja a percepção de que minha noção de tempo anda mais vasta do que os ponteiros em si. Tempo antes significava algo menos amplo, menos necessário. A expectativa pelas férias, quem sabe? Ou o desejo de arranjar um tempo para conversar com um amigo. Coisas bobas.

Hoje, o tempo soa menos como um sintoma e mais como uma dimensão. “Eu vou fazer isso, porque esse é meu tempo”, “O único tempo que eu conheço é o agora”, “Eu quero consertar isso hoje, porque o tempo passa”, “Eu quero isso agora, porque estou vivendo nesse momento”, são frases que passaram várias vezes pela minha cabeça nesses últimos meses. Elas são sempre seguidas de uma vontade de corrigir, acertar, melhorar: “Eu não vou aceitar isso”, é a frase que mais se repete.

Os ponteiros vastos, o velho que desperta ansioso de noite louco para contar uma história ao neto… Talvez meu amigo só estivesse se referindo a essa capacidade humana de não aceitar o tempo como ele ambiciona ser: uma prisão. Se temos tão pouco dele, porque hesitamos tanto? É risível, basta não aceitá-lo.

No fim, só dá para concluir que eu não sei o que o tempo é, só tenho certeza do que ele não é. Ou do ele não vai ser diante do que eu ainda posso conseguir.

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