Sobre a beleza (II)

Havia ainda uma longa escadaria que dava, provavelmente, em lugar nenhum. E ele já nem queria mais subir – ou, sejamos justos, queria sim, mas o desgaste pegava-lhe pelos braços. Mais que um impasse, a escada (ele pensou) era o objetivo.

Ele achou que fosse subir o primeiro degrau e cair. Talvez não tivesse como. Talvez fosse melhor deixar a escada como ela era, um segredo só dele, uma metáfora para o que ele ainda via de beleza no mundo (“Uma metáfora dentro de uma metáfora” agilizou os pensamentos).

Chegar ao final da escada seria sim algo que lhe traria completude; mas, por um momento, observou os degraus se arqueando, como se sua metáfora o rejeitasse antes dos primeiros passos. Estava claro que não adiantaria de nada segurar no corrimão, nem acender a luz ou tentar subir correndo.

Você devia argumentar com a escada, perguntar-lhe: “A que horas eu posso subir, por favor?”.

– Palavras são só recursos fúteis – ele respondeu ao narrador – mas eu não quero que ninguém suba essa escada que não eu.

Deixando o narrador estarrecido, ele tentou pisar no primeiro degrau. E subiu um pouco, tentando não escorregar, tentando, principalmente, esquecer que se tratava daquela escada. Com passos até corajosos, ele seguiu. Subiu tanto que em dado momento decidiu que estava na metade do caminho (muito embora ele nem soubesse o tamanho verdadeiro).

E aí uma luz se apagou no topo lá bem, bem, bem distante. Ele cambaleou, tentou segurar em alguma coisa, mas caiu vários degraus. Em seguida, todas as luzes se acenderam e ele ficou exposto aos olhares de todos os lados. Todos viam absolutamente tudo.

Lá ficou, um taciturno romântico. Lá ouviu tambores da África, sentiu sentimentos importados dos europeus, crises do capitalismo mundial, grosserias e idealizações belíssimas do comunismo. Ficou de pé por culpa de uma certa melancolia burguesa, que tinia toda vez que lia no jornal sobre algum massacre do outro lado do globo.

Ele, de novo, olhou exclusivamente para a escada. E, quando todos começavam a ver melhor, pensou: “eu estou ficando cego”.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s