Eu nunca aprendi a dividir

Meu irmão e minha irmã não falam comigo.

Sobram, então, cerca de vinte parentes com quem troco abraços breves ou acenos desconfortáveis, e uns dois ou três com quem troco algumas palavras de educação. Mas meus irmãos, com eles nem olhares.

Cheguei à reunião de família pouco depois das duas horas e o calor intenso fazia com que todos ocupassem sistematicamente o jardim de entrada. Era como observar um jogo de xadrez, cada peça no seu devido espaço, cada um conversando com o familiar que considerava mais próximo.

Entrei caminhando a passos largos, passando a impressão de que já estava pronto para me despedir. Fiz uma comunicação breve com a maioria e entrei na casa. Fora as duas empregadas que arrumavam os pratos lambuzados de doces e os copos meio vazios de cerveja, ninguém mais passava por ali. No entanto, sabia exatamente onde meu avô estava – e o mínimo que podia fazer a essa altura era cumprimentá-lo.

Passei pelo corredor cruzando a porta da cozinha e fiz um gesto veloz para as cozinheiras (que permaneceram imóveis, provavelmente sem fazer ideia de quem era a criatura que por ali passava). Segui um pouco envergonhado pelo saguão e depois pela sala de jogos – onde um tio distante bebia sozinho em sua obesidade e tristeza, acho que tocava na vitrola Wagner ou Schubert, não sei dizer.

Depois de toda as várias salas, meias salas e halls surgia ela, inerte e completamente tatuada em minha memória: a porta do escritório do vovô. Dificilmente perderia várias linhas descrevendo uma porta, como você talvez encontrasse naquele fatídico capítulo de “O Nome da Rosa”; porém, não nego minha vontade de detalhá-la. Não o farei, cabendo ao leitor o trabalho doloroso de imaginar uma simples porta de madeira que parecia guardar todos os mistérios do mundo. Não faça aqui comparações com a caixa de Pandora. Por favor. Não havia nada de cruel e caótico ali dentro. Pelo contrário, se um cômodo pudesse ganhar o prêmio Nobel da paz, certamente seria aquele – implicando aí todas as conotações e digressões da palavra.

Encostei a mão na maçaneta e estava fria (e destrancada, como de costume). Depois de vários anos, acredito que ninguém se dava muito ao trabalho de visitar o vovô. Sem qualquer dúvida de que seria bem recebido, abri e entrei. Era quase como se estivesse dentro de um compartimento embalado a vácuo. Olhar para os céus daquele ambiente, assemelhava-se a encarar do chão o cume do Everest. Tantos livros para se conquistar, tanta sabedoria para se adquirir. E tão pouco oxigênio.

Vovô estava no lugar de sempre. Sentando na poltrona que virava-se para a varanda. O sol ainda batia sobre seus ombros, mas isso não o impedia de utilizar um espessa luminária de pescoço fino e aro de aço.

O lugar e suas coisas estavam intactas mesmo depois do que soava como milhões de anos. Ele cuidava do seu mundo como nenhum outro ser humano. Se deus realmente existe, meu avô certamente era um dos poucos tocados por ele. Não só o esmero daquele senhor em catequizar quem quer que entrasse no seu templo, mas também porque sua mera presença engolia qualquer vazio. E era ateu. “Ateu de pés juntos”, dizia brincando.

– O que está fazendo ai como se tivesse o diabo nas costas? – perguntou ainda com os olhos enterrados sobre as palavras.

Ele adorava citar essas coisas. Como se a religião fosse a simbologia simultaneamente mais digna e estúpida do mundo. Sempre concordei com ele. Nunca aceitei qualquer dogma para mim e sempre desprezei pessoas que se abraçam às falácias divinas para enfrentar seus problemas; no entanto, sempre entendi o universo como uma manifestação religiosa.

– Que saudades, vô!

Caminhei até sua direção, ao passo que ele terminava de fechar o livro que lia.

– Tenho a sensação de que não o vejo há mais de dez anos. E mesmo assim – ele parou de falar e colocou as mãos trêmulas sobre as maçãs do meu rosto e então continuou – você não envelheceu um único dia.

Cada palavra, cada sílaba, cada som, tudo que sua boca proferia flutuava no ar como um coloide de ar e paixão. Não havia uma hesitação sequer. Nem o melhor charlatão passava a impressão que ele passava. Meu avô era o homem mais verdadeiro entre os homens verdadeiros. Ainda que eu não tenha diploma para defender esse tipo de coisa.

Não fazia silêncio. Por mais calado e observador que sua pessoa fosse (eu jamais consegui imaginar o meu avô fazendo grande esforço dialético para conquistar minha avó, por exemplo), o sujeito nunca foi muito adepto da total falta de som. Sempre havia música. E ali não havia dúvida, ele ouvia “Réquiem” do Mozart – de novo a aprovação irônica da religião que ele tanto negava.

– Rex tremendae – eu balbuciei.

Ele sorriu com enorme pureza.

– Você ainda se lembra, não é? Do rei?

– E há como esquecer, vovô? – completei, ainda que meu iPod pudesse tornar aquela colocação totalmente falsa.

De fato, aquela música dizia muito sobre mim. Talvez por isso vovô tivesse feito aquela pergunta. Desde sempre manifestei interesse curioso por pequenos delitos sentimentais, tais quais de um deus vaidoso. Criado numa casa sem pai e nem mãe, nunca tive muito limite. E, com impetuosa liberdade, meu avô me permitia qualquer tipo de golpe. Seu único defeito: ele acreditava que todos os seres inteligentes ganhavam naturalmente o direito de açoitar os mais fracos. Mal sabia ele que os mais fracos sempre tiveram um jeito ou outro de responder a essa imposição divina. E, o pior de tudo, nunca fui tão brilhante como ele imaginava que eu seria. Meus irmãos, ditos mais “simples da cabeça”, acabaram se encontrando com maior facilidade.

Ainda assim, meu irmãos amavam meu avô igualmente. Sabiam que por trás daquela máscara de complexidade intelectual existia um homem passivo e alegre ao viver o comum. O problema, de fato, era eu. Vovô compreendia minha ira resguardada, porque sempre soube que ao nascer com muito, esperaria muito durante toda vida. Era de sua compreensão também, o caminho que me levaria para tão distante de todos os membros daquela família.

Havia em “Réquiem” outro momento com o qual me identificava ainda mais do que com o famigerado rei tremendo. Tratava-se do momento em que Mozart inseria um coro em tons baixíssimos, quase mórbidos, com os dizeres: “me chame para junto dos abençoados”. Acredito que tenha passado meus vinte e poucos anos de vida pensando nessa frase. Pensando e me frustrando com a certeza de que a bênção divina nada mais podia ser do que a ignorância. No fundo, acreditava que vovô devia ser o único homem sábio capaz de fazer pouco da própria existência. Como se a morte fosse apenas um piscar de olhos. Uma ironia. Uma percepção e não uma sentença perturbadora.

Dessa forma, ficava fácil entender porque vovô não se motivava muito com formalidades. Ele não ia me perguntar como eu estava, por exemplo. Esse tipo de pergunta não constava em seu itinerário. Provavelmente não faria mais qualquer vocalização, só esperaria minha manifestação.

– Acho que vou me mudar, vô. Ir para outra cidade, tentar fazer alguma coisa diferente. Preciso esquecer uma mulher que não me ama. Preciso esquecer meu gato que morreu. Preciso ler alguns livros. Preciso escrever.

Seu rosto se tornou severo. Os óculos caíram abruptamente em suas mãos. Já esperava por isso. De novo, dirá que tudo isso vai passar quando eu aprender a aceitar os limites como sendo apenas pontos específicos do tempo – ou qualquer outra explicação do tipo, que provavelmente só seria compreendida meses depois.

– Mudar vai ser bom. Novos ares trarão novas ideias. Não esqueça essa mulher, apenas aceite. Sinta a dor, ela faz parte de estar vivo. Compre outro gato. Não leia se não estiver afim. E só escreva depois que tudo isso que eu disse se torne só parte do seu dia.

Aquele pequeno sermão sereno, talvez tenha satisfeito quem está lendo, mas me deixou extremamente irritado por algum tempo. Ninguém quer ouvir exatamente o que espera ouvir. Acho que, no meu egoísmo sentimental, sempre espero que as pessoas se relacionem com a minha agonia. “Se eu tivesse tudo que quero nesse momento, talvez não estivesse tão consumido pelo meu egocentrismo” costumo pensar.

Absorto em meus pensamentos nem percebi que o vovô já havia voltado-se para seu livro. Era sua forma de dizer adeus. Enquanto me afastava imaginei-o como um centenário relojoeiro, talhando pequenas engenhocas e acertando cuidadosamente os ponteiros para as horas certas. Um grande mestre do tempo, ciente de que tudo é, na verdade, mera futilidade nossa.

Quando sai do escritório, vi meus irmãos conversando na escada. Ambos me viram e fingiram que ninguém estava ali. Como disse antes, meu irmão e minha irmã não falam comigo. Mas eu não os culpo.

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