Você sabe o quê que eu quero ser?

“- Você sabe o quê que eu quero ser? – perguntei a ela. – Sabe o que é que eu queria ser? Se pudesse fazer a merda da escolha?

– O quê? Para de dizer nome feio.

– Você conhece aquela cantiga: “Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio”? Eu queria…

– A cantiga é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”! – ela disse. – É dum poema do Robert Burns.

– Eu sei que é dum poema do Robert Burns.

Mas ela tinha razão. É mesmo “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”. Mas eu não sabia direito.

– Pensei que era “Se alguém agarra alguém” – falei. – Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

(Pág 168. O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger)

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