Os 10 Melhores Discos de 2014

Este foi o ano em que fiz a lista menos pensada possível. Ironicamente, é a minha lista favorita em todos os anos. Talvez porque, distante de revistas, blogues e artigos, eu tenha tido a liberdade de forma minhas opiniões isento de qualquer influência externa. Ainda assim, é preciso dizer que, por falta de tempo, não consegui ouvir mais do que 80 discos (comparando com 2010, quando ouvi 800, chega a ser assustador). Confesso também que pouco pensei sobre funções obrigatórios do pop ou sobre tendências sonoras. Não observei padrões, nem teci teorias. Fiz o que todo apaixonado por música deveria fazer: ouvi música. O resultado é essa coletânea muito particular de discos:

10. Present Tense – Wild Beasts

“We feel the thing they will never feel” (‘Wanderlust’)

Depois do ápice poético (com uma obra que dialogava com a agonia de Clarice Lispector e a agressividade lírica de Mary Shelley), o Wild Beasts voltou seu foco ao que lhes pareceu obrigatório: o rock inglês. Numa espécie de resposta ao indie – e sua ironia chique -, a banda criou uma atmosfera nada pomposa, como se a denunciar todos os exageros dos compatriotas. Sem depender dessa opção e utilizando-a sempre como aliada das composições, oferecem a 2014 essa pequena pílula de reflexões sobre os tempos atuais. O disco menos ambicioso deles, mas o mais preciso. A música mais bonita do ano, Sweet Spot, está aqui.


9. A U R O R A – Ben Frost

Ben Frost poderia fazer parte daquele lista de produtores que, antes explorarem um sub-gênero específico, procuram endereçar seus discos a algum cenário. Tendo trabalhado durante muito tempo com trilhas sonoras de filmes, o sujeito consegue lidar com essa proposta de forma quase perfeita. Da condução fantasmagórica à escolha dos ritmos soturnos, passando inclusive pelo nome das faixas. Tudo em A U R O R A grita o conceito sonoro e imagético que Frost imaginou. Daí que acaba se tornando um daqueles raros discos de eletrônica em que nos emocionamos antes mesmo de entender todo seu pernóstico mecanismo.


8. In Conflict – Owen Pallett

“My salvation is found in discipline” (‘I Am Not Afraid’)

Se tivesse dividido minhas previsões sobre Pallett com alguns amigos, talvez estivesse dizendo com todos as sílabas: “eu avisei”. Em 2010, a luz de Heartland, pensei: “Nos próximos anos esse cara vai gravar uma grande obra”. Não deu outra. Pallett só precisava abrir mão das amarras que projetou para si. In Conflint é, portanto, a somatória de anos e anos de uma experimentação. Impressionante mesmo é como um álbum tão obcecado por suas canções acaba soando com um fim de semana tranquilo em que um pacato homem resolveu refletir serenamente sobre a vida.


7. What is this Heart? – How to Dress Well

“Even broken my heart will go on” (‘Repeat pleasure’)

No capítulo novo do How to Dress Well, Tom Krell deixa de lado o desenho de suas atmosferas para se provar um baita compositor. Seria redundante dizer que o álbum expressa a forma como ele vê a música pop – até porque tudo que ele fez é, na verdade, uma tradução de sua percepção diante da tradição que admira. Mas não consegui pensar em outra maneira de defendê-lo, sem ser apontando que, muito embora Krell tente lapidar com detalhes inquietos a maiorias dessas faixas, o que mais me pega é sua capacidade melódica. Sem qualquer senso de ridículo, What is this Heart? abusa do melodrama para despejar hits improváveis nos seus fones de ouvido.

6. Benji – Sun Kil Moon

“In this senseless tragedy, oh Carissa, I will sing your name across a thousand seas”  (‘Carissa’)

Benji é um projeto completamente atípico. Tratar das sonoridades que ele trabalha parece até superficial diante de tanta capacidade narrativa. O caso aqui é de uma forte inversão. Os arranjos e melodias servem exclusivamente ao andamento das palavras. A sensação é de ouvir um diário sendo pouco a pouco destrinchado. Como se Mark nos deixasse espiar sua privacidade, expondo seus pensamentos mais abstratos sobre assunto muito comuns.

Uma das faixas chama-se ‘I Can’t Leave Without My Mother’s Love’. Outra ‘Ben’s My Friend’. E aí está toda a beleza desse disco: a capacidade de encontrar no cotidiano o oxigênio para a força universal dessas letras. Benji é um humilde registro dos pensamentos de um sujeito completamente ordinário que não tem qualquer vergonha de sua condição humana.


5. You are Dead! – Flying Lotus

“Tell me I’m in control now, tell me I can live longer now” (‘Never Catch Me’)

Há quem diga que o Flying Lotus é uma gênio rítmico e um idiota melódico. Existe alguma razão para contestar sua versatilidade melódica se você se aproximou dos seus discos da forma errada. Ocorre sim um desdobramento quase repetitivo, mas isso faz parte do ideário musical dele. You are Dead!, por isso, me soa como o capítulo mais perfeito. Retomando os temas de jazz dos anteriores, ele busca se recriar a partir de estereótipos – com o cuidado, claro, de fazer tudo isso soar tão obtuso quanto as primeiras audições de Cosmogramma foram. Nessa leva acaba produzindo uma fusão (ou seria uma profusão?) de todos os seus protótipos. Uma jornada em cacos, partículas, pedaços de obras-primas. New Jazz-Music, eu gostaria de chamar. No entanto, como FlyLo deixa a entender, o jazz nunca envelheceu de verdade.

(Obs: a faixa com o Kendrick Lamar é a melhor do ano e tem o melhor clipe da década)

4. The Unnatural World – Have a Nice Life

“It isn’t real, but it feels real” (‘Burial Society’)

Talvez o ponto mais difícil da carreira de uma banda seja escrever o disco que sucede uma obra-prima. Bandas ambiciosas demais tentam o mais difícil: devolver fogo com fogo – ou seja, produzir outra obra-prima. O Have a Nice Life é formado por dois sujeitos muito realistas e isso provavelmente é capaz de explicar, por si só, como The Unnatural World sobrevive diante de Deathconsciouness.

Dan e Tim se uniram novamente para gravar um álbum que não soa como um adendo do anterior, nem mesmo uma continuação, mas um movimento totalmente diferente para um estilo que eles desenvolvem há diversos anos. Nesse sentido, essa aqui é a resposta possível do Have a Nice Life à problemática do próprio som: uma ode ao seu talento na produção. Pedras pequenas que soam como enormes pedregulhos.


 3. It’s Album Time – Todd Terje

“He need all the world to confirm that he ain’t lonely” (‘Johnny and Mary’)

Quem só imaginava Terje como um figurão sueco disposto a reinventar a música que nos faz dançar, talvez tenha se surpreendido com a versatilidade desse disco – quem esperaria uma balada romântica como ‘Johnny and Mary‘? Talvez esse ouvinte mais desatento tenha deixado de perceber como o objeto de estudo do produtor é sentimental. Terje se dá o direito de soar humano não só para poder explorar com tranquilidade suas experiências quase sensoriais (como definir ‘Inspector Norse‘ de outra forma?), mas porque encara a eletrônica como uma aventura nostálgica rumo ao desconhecido. Se isso te fizer dançar ou chorar no meio do caminho, ótimo. No entanto, a verdadeira sacada do disco é que eles nos permite fazer os dois simultaneamente.

2. LP1 – FKA Twigs

“So lonely trying to be yours, when you’re looking for so much more”  (‘Pendulum’)

O tempo dará o seu jeito de transformar esse disco numa peça descartável representante de um ano fraco. Mas não se deixe enganar. Há poucas investidas em 2014 tão pouco óbvias quanto essa. Até para quem já se acostumou com as milhares de vertentes que o R&B ofereceu desde o surto que o ressucitou, LP1 soa como um objeto estranho.

Numa visão geral, seria ele um disco de R&B ou de trip-hop? Difícil afirmar. Quanto mais se ouve, mais fica claro como a produção estufa o peito e encara os desafios de ambos os gêneros corajosamente. Funciona, no fim das contas, como um registro (sucinto até) de tudo que há de especial na maior tendência da música pop nessa década.

1. Our Love – Caribou

“How can we fix our love?” (‘Back Home’)

Snaith não optou por mexer muito na proposta que havia pensado para Swim, o elogiado álbum anterior. Ao contrário do que esperavam, voltou novamente sua atenção à intenção ambiciosa de encontrar os caminhos que levaram a dance-music a psicodelia (e vice-versa). Antes ele mirou um universo esparso, lotando a execução de faixas movediças. Aqui é mais honesto, nos oferece sua entrega emotiva e um legítimo disco pop.

Dando-se ao direito de tratar do tema mais recorrente da arte (o amor), Snaith acabou criando uma ponte entre sentimentos simples e abstrações musicais complexas. Our Love é, afinal, uma reflexão sobre como lidamos, em prol do nosso próprio ceticismo, com as coisas que amamos. De longe, o disco mais emotivo que a década produziu.

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