In Colour do Jamie XX em frases breves

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In Colours, segundo disco do Jamie XX. 2015.

1. Escrevi em abril do ano passado na época do single Girl: “Mesmo operando um pequeno milagre na crueza de XX, esse pântano que mistura sensibilidades muito diferentes (pop e sub sonoridades, retrô e moderno) soa como um passo enorme a frente. Um forte indício de que, se continuar assim, Jamie não vai deixar muito a dever ao Burial: parece vir das profundezas, mas tem pedigree de música pop.”

2. Essa frase superficial me ajuda a entender algumas coisas. Primeiro, não importa o quão caótico o som dele se torne (Gosh é um ponta-pé nos fãs do The XX), Jamie sempre vai se apoiar em arquétipos de música tradicional. Muita gente vai comparar In Colours a Four Tet – e eu concordo com eles -, mas o inglês continua sendo muito mais emotivo do que a sua referência.

3. Bom para nós, porque dessa forma o disco jamais perde a carga sentimental e, ao mesmo tempo, nunca entrega uma faixa que seja exatamente a imagem da anterior. Ou seja, Jamie é emotivo sem ser piegas e é versátil sem soar pedante. Tudo aquilo que um sound designer detesta.

4. Não dá pra não comentar o perfeccionismo do cara, até porque é visível como ele tenta evoluir sons que experimenta desde o princípio, na tentativa de achar o limiar ideal. Assisti um show do The XX em 2013 e me lembro dele tentando atribuir sonoridades de gêneros bem específicos dentro dos limites das lovesongs da banda. Aqui, sem um fator limitante, cada faixa ganha um universo bem particular. Cada uma parece querer referenciar um sentimento muito particular junto com uma carga melódica altamente específica.

5. Não à toa exista a presença fortíssima de um faixa de hip-hop. Com todo seu jeitão de música descontraída e seu vocabulário particular. Isso porque Jamie entende a música como um painel de sensações que são despertadas não necessariamente por uma identidade com o que o vocalista canta, mas com algo mais primitivo. Se hip-hop é sobre sexo e festas, vamos inserir isso num contexto sentimental que tenha, principalmente, respeito com a história do gênero. Young Thug parece entender a ideia e entrega um interpretação muito nostálgica, condizente com o projeto.

6. A estrutura do disco não é boba também. Loud Places, uma música sobre sair pelo caos das boates para encontrar “alguém para ficar em silêncio”, precede I Know There’s Gonna Be, que trata de curtir e se divertir a qualquer custo. E, dentro da construção sonora, soam como se pertencessem ao mesmo planeta. Ambas parecem dever muita à black-music, outra vertente forte das referências dele (jazz e r&B, principalmente).

7. Outros momentos revelam o talento para dance-music. Veja Stranger in a Room, que começa quase como uma faixa do The Knife e se deixa levar por um beat típico do The XX. Podia ser uma paródia de músicas de eletrônica, mas é apenas outra declaração de amor de Jamie aos gêneros que ele tanto admira. A guitarra ao fundo funciona como um presente aos fãs do The XX.

8. Por fim, o ponto mais alto é Seesaw. Uma espécie de resumo do trabalho. Está lá uma sensibilidade romântica, marcada pela voz de Romy ecoando por toda a música. Lá está o beat duro que jamais permite que o ritmo da música se perca. Ao todo, me parece uma forma de conectar a eletrônica e seus sub-gêneros dentro de uma malha melódica que una os mais diversos tipos de ouvintes. O pesadelo de todo sound designer. A ilusão em technicolor que esperávamos desde 2009.

 

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