Pop, She Wrote

No primeiro minuto de Realiti, a décima canção de Art angels (o quarto disco da Grimes, o segundo a sair pela 4AD), a narradora nos confessa: “O seu amor me manteve viva e tornou-me insana”. Você considera essa uma confissão vergonhosa? Você considera isso real?

Claire Boucher, a Grimes, como sabemos, é uma persona excêntrica que circula pelos festivais de música e moda despertando curiosidade de quem cruza com a figurinha. Ela também sempre nos foi apresentada em suas canções como uma doce menina, tão sentimental quanto qualquer um. Também nos foi apresentado seu universo de imagens abstratas, capaz de produzir letras vagas demais na opinião de alguns ouvintes. Ouça Oblivion ou Skin e tente retirar algo mais do que impressões dos sentimentos retratados.

Neste disco novo, Claire deixa de observar o vento batendo nas árvores, o movimento repetitivo dos corpos e o bater de seu coração, para escrever canções que realmente apelam para a alma pop que se escondia entre seus beats mais cadenciados e melodias etéreas. Sem baboseira. Sem poesia. Grimes rasga os livros de Virginia Woolf e vai ao inferno com todas as suas referências pop. O retorno a superfície não podia ser mais interessante. A mocinha volta de lá com tudo que há de ruim e trata isso como se fosse o bem mais sagrado da humanidade.

Desde o princípio, não vemos mais a ilusão emotiva ganhar o espaço que pertence a realidade. Grimes não precisa mais de seus ídolos, o dedo repousa no rosto de quem for. “California, you only like me when you think I’m looking sad” dispara em California, sobre sintetizadores e guitarras de indie rock. A mensagem, não se engane, tem endereço.

O que mais me aproxima dele, no entanto, é como apesar de ser um disco insanamente pop, soa extremamente imaginativo. Ela não parece mais se interessar tanto pela ambient music ou pelos demais sub-gêneros que claramente fazem parte da formação musical dela, mas demonstra como a música pop pode se adaptar aos temas que ela trabalha, mesmo que esteja sempre em busca de um refrão memorável.

Grimes, além disso, é uma perfeccionista. Não há um momento sequer no álbum em que se veja uma ponta solta. Seja nos momentos mais diretos como SCREAM (um punk pop com versos da rapper tailandesa Aristophanes), seja nos mais delicados como Realiti. A tentativa é de sempre oferecer ao ouvinte o vocal ideal, a pausa correta, a melodia mais intensa.

Por fim, é um disco sobre o que eu perguntei lá em cima. Trata-se de um álbum que se interessa pelo ridículo, o que às vezes o aproxima perigosamente de um Sleigh Bells ou de coisas mais duvidosas como Lana Del Rey, com a diferença de que Claire é, acima de tudo, uma exímia observadora. Ela se entrega sim, mas não sem deixar uma pancada aqui e ali. “Quando eu me levanto, é isso que vejo” conta em Realiti e pouco depois infere sorrateiramente que “somos todos iguais”.

Para ela não importa se você é capaz de sentimentos complexos, basta estar vivo no século XXI para ser parte da história. Tudo faz parte da realidade que é construída cada dia com nossas mensagens nos celulares e computadores. Verdade ou mentira, pouco importa. Hoje, isso faz parte da nossa complexidade. E a música, bem, como Belly of the beat nos conta, está aí para nos fazer fantasiar tudo isso e amar um pouquinho mais do que o normal.

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