Escrever, uma maldição

subway

Desde que eu larguei a faculdade de comunicação social em 2013 devo ter sentado duas, três, talvez quatro vezes para escrever. Era como se algo em mim tivesse morrido. Não era falta de inspiração ou de tempo (embora eu deva ter colocado a culpa nessas duas coisas na maioria das vezes), era falta de uma função para minha escrita. Eu sei que qualquer prolixo desleixado não precisa de uma função específica para abrir o word e digitar 10.000 caracteres, mas eu precisava. Para mim, um vestibulando em medicina e, posteriormente, um estudante de medicina, a escrita não podia mais fazer sentido.

Houve, claro, uma mudança brusca de hábitos. Antes eu gastava meu tempo ouvindo discos, lendo livros e assistindo filmes. Essas atividades que antes eram o carro-chefe do meu cotidiano pouco a pouco se tornam coadjuvantes. Não porque eu precisei fazer, mas porque definitivamente minha atenção e prazer se voltaram intensamente para biologia como um todo. Difícil explicar o prazer de ler um bom capítulo de um livro de medicina. Eu mesmo lá em 2010 ou 2012, completamente inserido no universo da arte, provavelmente não entenderia a pessoa que me transformei. Quem trocaria um maratona de filmes do Lynch pelo Harrison? Um disco do Animal Collective por um artigo sobre esclerose múltipla?

Por três anos ignorei aquela vontade voraz de escrever sobre absolutamente tudo. Correndo o risco de fazer um baita papelão, diria que quase voltei a escrever uns contos quando terminei de ler Os irmãos Karamasov no verão passado. Mas a maldição havia sido quebrada: Pedro não precisava mais escrever.

Não preciso medir palavras, afinal, o blog sempre foi uma válvula de escape perfeita: a merda da maldição voltou a me assombrar há uns meses já. Pedro precisa, de novo, escrever. Sobre o que? Ainda não sei bem. Talvez sobre ser um estudante de medicina. Ou talvez sobre discos e filmes que consegui assistir (sinto que poderia escrever alguma coisa minimamente decente sobre Manchester à beira-mar do Kenneth Lonergan e a interpretação esmagadora do Casey Afleck, ou sobre o disco de estreia do Sampha).

Esses dias ganhei um apreço inexplicável pelo metrô. A ponto que pensei em escrever sobre ele ou sobre um futuro distópico qualquer. Ou sobre cervejas e amigos. Ou sobre tudo isso.

Enfim, a maldita vontade de escrever voltou. O tempo provavelmente vai me dar um golpe cruel e esmagará sem dó nem piedade essa vontade. Mas quem sabe? Quem sabe eu não consigo lidar com isso de uma forma saudável – o que me faz pensar que seria interessante descrever sobre a saúde de um estudante de medicina (meu deus, não dá para parar).

Vai ser o que der. Quando puder tentarei atualizar com comentários breves minhas observações sobre discos e filmes de 2017 ou sobre qualquer coisa interessante que venha a chamar minha atenção. Eu já mencionei que o metrô me fascinou esses dias? Pois bem, começou assim…

PS: Por hora acho que vocês deviam clicar aqui e ouvir a faixa mais bonita gravada em 2017.

Top 10 | Faixas 2015

Para ouvir as músicas clique nos títulos.

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10. My Baby Don’t Understand Me – Natalie Prass

“What do you do when that happens? Where do you go?”

Talvez fosse necessário tentar explicar como Natalie se apropria de elementos do country pop que é extremamente popular nos EUA, mas que daria sono em qualquer pessoa que conheça minimamente o cenário, e o torna mais elaborado, mais rico em detalhes. Porém, o que mais me chama a atenção nessa faixa é como com um sentimento comum, uma melodia simplória e uma produção perfeccionista, Prass encontra a canção pop mais contundente de 2015.

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9. No Shadow in the Shade of the Cross – Sufjan Stevens

“Like my mother give wings to a stone”

Não importa o quão vasta seja a imaginação de Stevens, suas imagens são sempre fruto da sua formação cristã. Nesse ponto, esta faixa se mostra a mais intensa entre as que ele escreveu esse ano, é nela que o compositor consegue unir todo seu imaginário e dar forma ao sentimento de isolamento que assombra todo o álbum recente (Carrie & Lowell). Stevens continua sendo o mais talentoso de sua geração. De arrancar lágrimas de uma pedra.

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8. Atom Dance – Björk

“Enter the pain and dance with me”

Há alguns anos a compositora islandesa encontrou a nova gramática da sua música na força da natureza. Atom Dance é, nesse sentido, o magnum opus dela. Extrapolando os limites do visível, Björk inventa uma dança de átomos, colocando toda nossa unidade além do mundo observável, buscando a emoção da dança naquilo que há de mais complexo e belo na existência. Com violinos que rasgam a sua voz e a dramaticidade dos backing vocals de Antony Hegarty, a moça, de novo, nos convida ao desconhecido.

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7. Lonely Wanderer – Panda Bear

“Was it worthwhile?”

Repetindo um sampler de Arabesque do compositor francês Claude Debussy, Noah tenta nos colocar no core emotivo de Lonely Wanderer, carregando-nos com ela a uma reflexão particular sobre a finitude da vida. Com um desdobrar lento e preciso, o sujeito nos pergunta se todas as nossas decisões e idiossincrasias nos levaram para o lugar certo… se, enfim, a jornada valeu a pena. Colocaria Brian Wilson para chorar copiosamente.

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6. Silhouettes – Floating Points

Jazz, música clássica, ambient e muita sensibilidade. É basicamente o que se pode dizer dessa obra gigantesca, que simula um passeio cósmico às diversas referências musicais de Sam Shepherd. Como um bom nerd de música, o sujeito minou tudo que ele acreditava ser fundamental e colocou nesse frankenstein, tão repleto de detalhes que cada revisão minuciosa ainda mostrará segredos. Um verdadeiro presente ao ouvinte que se aventura nos seus 10 minutos de revelações, desdobramentos e perplexidade diante das possibilidades que somente a música permite.

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5. i – Kendrick Lamar

“I promise this: I love myself”

King Kunta, The Blacker the Berry, Wesley’s Theory, you name it. Não importa para onde olhamos, em 2015 ninguém escreveu tantas canções importantes e incríveis como Lamar. Porém, enquanto a maioria das obra-primas de To Pimp a Butterfly focam o lado mais agressivo da poesia dele, i foca no lado festivo que existe nela. Com um mero “I love myself” e uma guitarra redentora, Kendrick dá nova vida à cultura negra, com todo seu esplendor e relevância, com sua rica cultura, religião e música. Trata-se do grito mais direto e poderoso do maior rapper vivo: que se dane o resto quando você ama a si mesmo.

time

4. Time, as a Sympton – Joanna Newsom

“Not axe nor hammer, tumor, tremor, can take it away, and it remains”

Recém casada com o comediante Andy Samberg, Joanna nos leva a meditar sobre as certezas do tempo e o mistério que ainda é a significação do amor e da morte. No mais, é apenas outra canção de Joanna Newsom – com o detalhe de que outra canção dela, nunca é somente uma qualquer. Ainda apoiando-se sobre seus vocais excêntricos, ela vai escalonando uma melodia de piano que vai subindo até se sustentar na força da letra (“the joy of life” ela repete enquanto ouvimos pássaros cantando no fundo). Talvez seja a faixa mais casual que ela escreveu, mas é certamente uma das mais belas. Eu juro: o clímax é a prova da superação humana. Transcendente e uma lembrança de que ninguém escreve letras como ela.

sundaycandy

3. Sunday Candy – Donnie Trumpet & the Social Experiment

“I ain’t seen you in a minute let me take my butt to church”

Chance the Rapper, o cara que desde que apareceu só nos oferece obras do mais sereno estado de graça. Qualquer projeto que ele se envolva dá certo, é impressionante. No caso dessa faixa, Chance atualiza a gospel e a música tradicional, trabalhando um tema muito caro ao hip hop: a família. Mas ele é diferente de tudo. Com paixão e bom humor, Chance volta à infância para lembrar da sua avó, transformando a memória do amor no maior dos elementos sagrados. Quase uma cantiga infantil, Sunday Candy é uma das maiores vitórias do hip hop em 2015: inovador e alegre.

realiti

2. REALiTi (Demo) – Grimes

“Baby every morning there are moutains to climb”

Se eu pudesse eu voltaria no tempo e retiraria metade das coisas que eu disse sobre Grimes. Me desculpo agora: está aí a voz de uma geração. Pra começar, Grimes administra com perfeita sintonia a absurda distinção que existe entre a música eletrônica das grandes paradas e a delicadeza sentimental do synthpop. Ela teve que errar feio com Go em 2014 para encontrar um meio termo, uma dimensão ideal. Daí que essa versão demo de ReALiTi simboliza esse encaixe, com seu ambiente obscuro e solitário sendo delicadamente bombardeado por sintetizadores calorosos. Por fim, também demonstra a sua capacidade de se comunicar com o tempo em que vivemos. Aqui ela pinta o painel: a verdade não está mais lá fora nas ruas, mas dentro de nós, e a beleza de se notar isso é tão forte que pode nos enlouquecer muita das vezes. Dialogar com a realidade é o desafio.

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 1. I Know There’s Gonna Be (Good Times) – Jamie XX

“I’ll survive in a mothafuckin’ gutter”

O sujeito mais clássico da eletrônica moderna se junta com o rapper mais emocional do cenário, o resultado é essa falsa feed good music, uma verdadeira arma de nostalgia. O que mais me impressiona, toda vez que eu ouço a música (e não foram poucas), é sua incrível atmosfera. Mais do que a sua alma pop, I Know There’s Gonna Be possuí uma característica rara na música contemporânea: uma capacidade singular de ecoar o passado sem se entregar cegamente. Quase como um Bob Dylan, Jamie vai atrás de uma sonoridade particular (os anos dourados da soul music) e a atualiza com respeito e imaginação (ouvimos ecos de balearic beat, house, IDM e uma porção de outras coisas). Bom perceber que, para Jamie XX, o passado é a fonte de toda ambição e o futuro o caminho a seguir.

Pop, She Wrote

No primeiro minuto de Realiti, a décima canção de Art angels (o quarto disco da Grimes, o segundo a sair pela 4AD), a narradora nos confessa: “O seu amor me manteve viva e tornou-me insana”. Você considera essa uma confissão vergonhosa? Você considera isso real?

Claire Boucher, a Grimes, como sabemos, é uma persona excêntrica que circula pelos festivais de música e moda despertando curiosidade de quem cruza com a figurinha. Ela também sempre nos foi apresentada em suas canções como uma doce menina, tão sentimental quanto qualquer um. Também nos foi apresentado seu universo de imagens abstratas, capaz de produzir letras vagas demais na opinião de alguns ouvintes. Ouça Oblivion ou Skin e tente retirar algo mais do que impressões dos sentimentos retratados.

Neste disco novo, Claire deixa de observar o vento batendo nas árvores, o movimento repetitivo dos corpos e o bater de seu coração, para escrever canções que realmente apelam para a alma pop que se escondia entre seus beats mais cadenciados e melodias etéreas. Sem baboseira. Sem poesia. Grimes rasga os livros de Virginia Woolf e vai ao inferno com todas as suas referências pop. O retorno a superfície não podia ser mais interessante. A mocinha volta de lá com tudo que há de ruim e trata isso como se fosse o bem mais sagrado da humanidade.

Desde o princípio, não vemos mais a ilusão emotiva ganhar o espaço que pertence a realidade. Grimes não precisa mais de seus ídolos, o dedo repousa no rosto de quem for. “California, you only like me when you think I’m looking sad” dispara em California, sobre sintetizadores e guitarras de indie rock. A mensagem, não se engane, tem endereço.

O que mais me aproxima dele, no entanto, é como apesar de ser um disco insanamente pop, soa extremamente imaginativo. Ela não parece mais se interessar tanto pela ambient music ou pelos demais sub-gêneros que claramente fazem parte da formação musical dela, mas demonstra como a música pop pode se adaptar aos temas que ela trabalha, mesmo que esteja sempre em busca de um refrão memorável.

Grimes, além disso, é uma perfeccionista. Não há um momento sequer no álbum em que se veja uma ponta solta. Seja nos momentos mais diretos como SCREAM (um punk pop com versos da rapper tailandesa Aristophanes), seja nos mais delicados como Realiti. A tentativa é de sempre oferecer ao ouvinte o vocal ideal, a pausa correta, a melodia mais intensa.

Por fim, é um disco sobre o que eu perguntei lá em cima. Trata-se de um álbum que se interessa pelo ridículo, o que às vezes o aproxima perigosamente de um Sleigh Bells ou de coisas mais duvidosas como Lana Del Rey, com a diferença de que Claire é, acima de tudo, uma exímia observadora. Ela se entrega sim, mas não sem deixar uma pancada aqui e ali. “Quando eu me levanto, é isso que vejo” conta em Realiti e pouco depois infere sorrateiramente que “somos todos iguais”.

Para ela não importa se você é capaz de sentimentos complexos, basta estar vivo no século XXI para ser parte da história. Tudo faz parte da realidade que é construída cada dia com nossas mensagens nos celulares e computadores. Verdade ou mentira, pouco importa. Hoje, isso faz parte da nossa complexidade. E a música, bem, como Belly of the beat nos conta, está aí para nos fazer fantasiar tudo isso e amar um pouquinho mais do que o normal.

O tempo dos fortes

Começou com um disparo em seco. Ele ainda caminhava a esmo, sem qualquer atenção ao perigo. Existe, de fato, esse estado de autocontrole e segurança em que se acredita que nada pode dar errado. É como se o seu ser estivesse em um campo gravitacional próprio, capaz de regular suas próprias leis naturais.

Aí o inimigo surge no fim da linha como uma sombra e o mesmo ser lembra que ainda está no planeta Terra. Ele não precisa se lembrar, por outro lado, que é um animal e que nesse momento, é um animal sendo caçado. Seus instintos são de bicho. As pupilas dilatam, o campo visual se torna gigantesco. A bexiga se constringe. Os brônquios se abrem recebendo massas grosseiras de gás oxigênio. O coração dispara, bombeando violentamente o sangue da criatura. Ele é um bicho-máquina. “Estou sendo caçado” compreende.

Este não é como outras criaturas mal treinadas. Seu pensamento seguinte não é o hipócrita “acalme-se”; seu recurso é mais primitivo, o cérebro reptiliano comanda: ele se agita. Sua pele parece ferver. Os pés saltitam como se um acelerador interno estivesse se aquecendo para dar partida. O corpo então começa a agir, correndo para se esconder enquanto a manta negra que o cobre se movimenta em respeito às leis naturais desta terra.

O frio cortante daquela ponte não parece fazer diferença, principalmente quando uma rajada de tiros começa a perfurar todos os carros abandonados. O ambiente está quente como lava vulcânica. A criatura quer gritar. Mas não é medo. É excitação. Seu sangue vibra, está na hora de lutar para sobreviver.

A resposta não é de proporções pequenas. Ele toma a metralhadora pouco maior que seu tronco e começa a disparar. Enquanto outros pensariam em situações inspiradoras como “preciso vencer o obstáculo” ou em outros dilemas existenciais “essa é minha chance de provar ao mundo o contrário”, ele se restringe a concluir: “Eu vou sobreviver, porque sou o mais forte”. Seus tiros são, a princípio, sem qualquer estratégia. Sua vontade é somente de acuar seu inimigo.

O pente continua a supri-lo de balas enquanto as cápsulas vazias continuam a cair contra o assoalho. O que ocorre em seguida é assombroso. Sem qualquer cuidado pela sua segurança, a sombra se projeta veloz utilizando os carros como barreiras aos tiros. Na correria, começa a sua resposta. Sua arma aponta para o destino e inicia sua contra performance. O barulho é perturbador. Duas almas colidem numa batalha colossal.

Quando as armas esvaziam seus pulmões, só lhes resta o combate frontal. A criatura ainda olha o revólver repousando na cintura, mas desiste. Há mais vida nos seus punhos. Está na hora de conhecer seu rival. O tempo real continua normal, fugaz, mas o tempo psicológico dos personagens é mais dramático – aquilo tudo lhes parece durar semanas, meses, até mesmo anos. Finalmente, monstro contra monstro.

Chove intensamente no limiar do encontro. A sombra saca uma faca, mas é rapidamente desarmada. Nada de instrumentos. Nada de coadjuvantes. Ele arranca o revólver da cintura e o lança o mais longe que pode. Seus corpos se projetam a frente. Os mecanismos motores de suas máquinas são acionados para que seus músculos e ossos possam machucar a carne do inimigo. O sangue rapidamente é convidado a se retirar de suas cavidades mais internas e, pouco a pouco, vai pintando o cenário.

A sombra vacila. Está cansada, ferida. Ela caminha sem equilíbrio, o cerebelo dançando dentro do seu crânio. Aquela valsa está perto do fim. A criatura observa o resultado da interação de todas as peças do seu quebra-cabeças. Está na hora de fazer o cosmos, de novo, contemplar a lei dos mais fortes. A lei daqueles que se levantam de derrotas, que estabelecem sempre novos desafios para seus limites. Seus olhos brilham, a ponte estremece com o impulso final de seu golpe. E a noite é presenteada com o momento em que todas as criaturas invencíveis, imortais, insaciáveis, bebem da fonte que mantém a vida vibrante. Ele ainda não pode ser derrotado.

Duas visões sobre o Amor que se completam

Psiquê e Eros

A visão nobre:

“O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”

(1 Coríntios 13)

A visão objetiva:

“O amor põe em evidência as qualidades elevadas e ocultas daquele que ama – o que nele é raro, excepcional: assim fazendo, engana acerca daquilo que nele é norma”

(Nietzsche em 100 Aforismos sobre o amor e a morte)

In Colour do Jamie XX em frases breves

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In Colours, segundo disco do Jamie XX. 2015.

1. Escrevi em abril do ano passado na época do single Girl: “Mesmo operando um pequeno milagre na crueza de XX, esse pântano que mistura sensibilidades muito diferentes (pop e sub sonoridades, retrô e moderno) soa como um passo enorme a frente. Um forte indício de que, se continuar assim, Jamie não vai deixar muito a dever ao Burial: parece vir das profundezas, mas tem pedigree de música pop.”

2. Essa frase superficial me ajuda a entender algumas coisas. Primeiro, não importa o quão caótico o som dele se torne (Gosh é um ponta-pé nos fãs do The XX), Jamie sempre vai se apoiar em arquétipos de música tradicional. Muita gente vai comparar In Colours a Four Tet – e eu concordo com eles -, mas o inglês continua sendo muito mais emotivo do que a sua referência.

3. Bom para nós, porque dessa forma o disco jamais perde a carga sentimental e, ao mesmo tempo, nunca entrega uma faixa que seja exatamente a imagem da anterior. Ou seja, Jamie é emotivo sem ser piegas e é versátil sem soar pedante. Tudo aquilo que um sound designer detesta.

4. Não dá pra não comentar o perfeccionismo do cara, até porque é visível como ele tenta evoluir sons que experimenta desde o princípio, na tentativa de achar o limiar ideal. Assisti um show do The XX em 2013 e me lembro dele tentando atribuir sonoridades de gêneros bem específicos dentro dos limites das lovesongs da banda. Aqui, sem um fator limitante, cada faixa ganha um universo bem particular. Cada uma parece querer referenciar um sentimento muito particular junto com uma carga melódica altamente específica.

5. Não à toa exista a presença fortíssima de um faixa de hip-hop. Com todo seu jeitão de música descontraída e seu vocabulário particular. Isso porque Jamie entende a música como um painel de sensações que são despertadas não necessariamente por uma identidade com o que o vocalista canta, mas com algo mais primitivo. Se hip-hop é sobre sexo e festas, vamos inserir isso num contexto sentimental que tenha, principalmente, respeito com a história do gênero. Young Thug parece entender a ideia e entrega um interpretação muito nostálgica, condizente com o projeto.

6. A estrutura do disco não é boba também. Loud Places, uma música sobre sair pelo caos das boates para encontrar “alguém para ficar em silêncio”, precede I Know There’s Gonna Be, que trata de curtir e se divertir a qualquer custo. E, dentro da construção sonora, soam como se pertencessem ao mesmo planeta. Ambas parecem dever muita à black-music, outra vertente forte das referências dele (jazz e r&B, principalmente).

7. Outros momentos revelam o talento para dance-music. Veja Stranger in a Room, que começa quase como uma faixa do The Knife e se deixa levar por um beat típico do The XX. Podia ser uma paródia de músicas de eletrônica, mas é apenas outra declaração de amor de Jamie aos gêneros que ele tanto admira. A guitarra ao fundo funciona como um presente aos fãs do The XX.

8. Por fim, o ponto mais alto é Seesaw. Uma espécie de resumo do trabalho. Está lá uma sensibilidade romântica, marcada pela voz de Romy ecoando por toda a música. Lá está o beat duro que jamais permite que o ritmo da música se perca. Ao todo, me parece uma forma de conectar a eletrônica e seus sub-gêneros dentro de uma malha melódica que una os mais diversos tipos de ouvintes. O pesadelo de todo sound designer. A ilusão em technicolor que esperávamos desde 2009.

 

E se eu cair?

“‘[…] Mesmo que você e eu deixássemos de existir, dois e dois continuariam sendo igual a quatro.’

‘É, mas qual dois e qual dois fazem quatro? Acredito, Eugênio, que quase todo o tempo uma criança simplesmente não entende os números, como um gato ou um cachorro não entendem. Mas de vez em quando tenho de perguntar a mim mesmo: existe alguém no mundo para quem os números são mais reais?

‘Enquanto eu estava no hospital, sem mais nada para fazer, tentei, como um exercício mental, ver o mundo através dos olhos do David. Ponha uma maçã na frente dele e o que ele vê? Maçã: não uma maçã, apenas maçã. Ponha duas maçãs na frente dele. O que ele vê? Maçã e maçã: não duas maçãs, não a mesma maçã duas vezes, só maçã e maçã. Aí, vem o señor León (señor León é o professor da classe dele) e pergunta: Quantas maçãs, menino? Qual a resposta? O que é maçãs? O que é o singular do qual maçãs é o plural? Três homens dentro de um carro indo para os Blocos Leste: quem é o singular do qual homens é o plural – Eugênio, Simón ou nosso amigo motorista cujo nome eu não sei? Nós somos três, ou somos um e um e um?

‘Você ergue as mãos exasperado e posso entender por quê. Um e um e um fazem três, você diz e sou forçado a concordar. Três homens num carro: simples. Mas David não nos acompanha. Ele não dá os passos que nós damos para contar: um passo dois passo três. É como se os números fossem ilhas flutuando num grande mar negro de nada e a cada vez lhe pedissem que fechasse os olhos e se lançasse no vazio. E se eu cair? – é isso que ele pergunta a si mesmo. E se eu cair e ficar caindo para sempre? Deitado na cama no meio da noite, eu podia jurar às vezes que também estava caindo – caindo sob o mesmo encantamento que toma conta do menino. Se ir de um para dois é tão difícil, eu me perguntava, como vou fazer para ir de zero a um? De lugar algum para algum lugar: parecia exigir um milagre a cada vez'”

(A infância de Jesus, págs 268-269, J. M. Coetzee)