O tempo dos fortes

Começou com um disparo em seco. Ele ainda caminhava a esmo, sem qualquer atenção ao perigo. Existe, de fato, esse estado de autocontrole e segurança em que se acredita que nada pode dar errado. É como se o seu ser estivesse em um campo gravitacional próprio, capaz de regular suas próprias leis naturais.

Aí o inimigo surge no fim da linha como uma sombra e o mesmo ser lembra que ainda está no planeta Terra. Ele não precisa se lembrar, por outro lado, que é um animal e que nesse momento, é um animal sendo caçado. Seus instintos são de bicho. As pupilas dilatam, o campo visual se torna gigantesco. A bexiga se constringe. Os brônquios se abrem recebendo massas grosseiras de gás oxigênio. O coração dispara, bombeando violentamente o sangue da criatura. Ele é um bicho-máquina. “Estou sendo caçado” compreende.

Este não é como outras criaturas mal treinadas. Seu pensamento seguinte não é o hipócrita “acalme-se”; seu recurso é mais primitivo, o cérebro reptiliano comanda: ele se agita. Sua pele parece ferver. Os pés saltitam como se um acelerador interno estivesse se aquecendo para dar partida. O corpo então começa a agir, correndo para se esconder enquanto a manta negra que o cobre se movimenta em respeito às leis naturais desta terra.

O frio cortante daquela ponte não parece fazer diferença, principalmente quando uma rajada de tiros começa a perfurar todos os carros abandonados. O ambiente está quente como lava vulcânica. A criatura quer gritar. Mas não é medo. É excitação. Seu sangue vibra, está na hora de lutar para sobreviver.

A resposta não é de proporções pequenas. Ele toma a metralhadora pouco maior que seu tronco e começa a disparar. Enquanto outros pensariam em situações inspiradoras como “preciso vencer o obstáculo” ou em outros dilemas existenciais “essa é minha chance de provar ao mundo o contrário”, ele se restringe a concluir: “Eu vou sobreviver, porque sou o mais forte”. Seus tiros são, a princípio, sem qualquer estratégia. Sua vontade é somente de acuar seu inimigo.

O pente continua a supri-lo de balas enquanto as cápsulas vazias continuam a cair contra o assoalho. O que ocorre em seguida é assombroso. Sem qualquer cuidado pela sua segurança, a sombra se projeta veloz utilizando os carros como barreiras aos tiros. Na correria, começa a sua resposta. Sua arma aponta para o destino e inicia sua contra performance. O barulho é perturbador. Duas almas colidem numa batalha colossal.

Quando as armas esvaziam seus pulmões, só lhes resta o combate frontal. A criatura ainda olha o revólver repousando na cintura, mas desiste. Há mais vida nos seus punhos. Está na hora de conhecer seu rival. O tempo real continua normal, fugaz, mas o tempo psicológico dos personagens é mais dramático – aquilo tudo lhes parece durar semanas, meses, até mesmo anos. Finalmente, monstro contra monstro.

Chove intensamente no limiar do encontro. A sombra saca uma faca, mas é rapidamente desarmada. Nada de instrumentos. Nada de coadjuvantes. Ele arranca o revólver da cintura e o lança o mais longe que pode. Seus corpos se projetam a frente. Os mecanismos motores de suas máquinas são acionados para que seus músculos e ossos possam machucar a carne do inimigo. O sangue rapidamente é convidado a se retirar de suas cavidades mais internas e, pouco a pouco, vai pintando o cenário.

A sombra vacila. Está cansada, ferida. Ela caminha sem equilíbrio, o cerebelo dançando dentro do seu crânio. Aquela valsa está perto do fim. A criatura observa o resultado da interação de todas as peças do seu quebra-cabeças. Está na hora de fazer o cosmos, de novo, contemplar a lei dos mais fortes. A lei daqueles que se levantam de derrotas, que estabelecem sempre novos desafios para seus limites. Seus olhos brilham, a ponte estremece com o impulso final de seu golpe. E a noite é presenteada com o momento em que todas as criaturas invencíveis, imortais, insaciáveis, bebem da fonte que mantém a vida vibrante. Ele ainda não pode ser derrotado.

Sobre os ideais

O punho fechado ajusta com esmero a tensão da corda. As duas extremidades da parábola se contraem como se ainda navegassem imortais no útero materno. A seta adormece em sono virgem, mas com a ponta tremendo de ansiedade, aguardado os segundos que a separavam do êxtase de atravessar a carne de um animal.

De repente dispara.

O grito do vento deflora o ar sem qualquer peso místico. O vermelho correndo pelos lábios da seta legitimam sua vitória. Com impetuosa velocidade, o homem cruza os curtos vales não encontrado desafio capaz de contê-lo. Sem cuidado, os pés pesados e corruptos pisam e se safam, agredindo os pequenos bosques de flores. Contaminado pelo cheiro metálico do sangue, o caçador chega com violência até sua presa.

Curvando-se para conferir seu trabalho, ele pega e guarda, com orgulho, a flecha certeira dentro da aljava. O sol se esconde na colina já muito apertado entre uma bochecha e outra. Chega a hora de fazer o caminho de volta. Com passos musicais crepitando sobre folhas secas e gravetos, no farfalhar irrequieto das árvores, para e observa a caça moribunda ainda com expressões paralíticas de dor. Então, em um gesto irônico e desrespeitoso, levanta a cabeça aos céus e sela suas orbitas.

Com sua moral bruta tinindo nas costas, no peito, em cada célula de seu truculento corpo, congela inerte por trinta e sete segundos. Refletia, alguns diriam; ou talvez só ouvisse o cantarolar fértil do cerne da floresta. Espera – espera pouco, mas espera. Acredita que a voz doce da mãe terra preencherá seus ouvidos pregando que todos os seus feitos serão lembrados e que sua alma será para sempre petrificada no coração de belas mulheres como a de um indigente do bom deus.

“Estou me tornando tudo aquilo que odeio” o caçador pensou.

O meu silêncio

Vejo de longe – ou imagino – uma grande soleira onde as árvores recuam delicadamente, como se estivessem curvando-se diante daquele lugar. Acredito que o vento bateria agressivamente contra as folhas, agitando o fogo e as sombras.

Nesse local, não existem diferenças ou semelhanças, verdades ou mentiras. Não trata-se de uma manifestação de felicidade, é algo mais simples. Não é, também, fruto de um silêncio como o que vem lá de cima e sim um silêncio dinâmico, que fomenta novas dúvidas.

Aqui posso, enfim, ouvir alguém. Posso ouvir na água. Nos murmúrios do vento. Está em toda as partes, trêmula como uma chama falciforme. Pelas sombras, seguindo e seguindo, até o limiar da noite. Caminhando preguiçosamente, mas sempre competente e orgulhosa.

Muitas estações passaram, até que finalmente as folhas caíram no chão. Elas não esperaram por nós. Em breve irão renascer: mais firmes, mais tolerantes, conscientes de que um limite conhecido, é um limite do passado.

Psicografia de um romance (I)

Estudo número #1:

Já faz um bom tempo que eu memorizei seu rosto.

Memorizei principalmente porque sempre tenho a sensação de vamos sumir a qualquer momento – nos tornar invisíveis para o resto mundo. Como se somente nós soubemos a explicação para o passar das horas e para as esquizofrenias do relógio. Não nos resta um pingo de humildade. Se passamos muito tempo recusando alpinismos sociais e destilações de sabedoria, é porque sabíamos que podíamos confiar nas abstrações do que dizemos. Mas o dia acaba antes que eu possa manipular de novo as palavras.

E eu sempre quero te dar flores, mas a temporada nunca me permite.

Noturnos

Nocturnes Op. 9, No.2

É trágico. Tão trágico que me levanto da mesa onde o sol queima tímido e vou tomar um copo d’água.

Eu me sinto tão sozinho. É como se dor de criar fizesse parte de cada nota, cada tilintar vergonhoso, jogado, anistiado, torturante. O serial-killer perdoado pelos sonhos enquanto bate sobre as teclas sem juízo.

A paixão quase foge do meu peito. Não há palavra que caiba nessas notas. Não há mulher que corrompa essa melodia. Não há tinta no mundo suficiente para o que eu desejo.  E, mesmo se houvesse, ninguém teria coragem de fazer as canetas que preciso. Não para minha poesia decrépita, minha insatisfação infrutífera, meu deus sem morte e sem pecado.

Minha dor cabe em poucas linhas. É pouca. É da pouca vida que vivi. Do pouco amor que projetei. Não é digna. Ela se perde. Desfalece no ar, pobre e raquítica.

Não é talento que me falta. É a falta. A falta que nunca existiu. A noite que nunca entrou. A morte que segue sendo uma piada de bom gosto.

Aqui não mora Joana d’Arc

A corrente presa às pernas arrastava e sapateava a cordilheira de escadas e elevações do palácio. Insubordinável aos demais seres humanos, o labirinto de pedras e sombras fazia de casa para ela.

O seu pelo, agora grotesco e inchado, exalava um forte cheiro de carne queimada. O sangue corria frouxo pelos forros abertos de suas entranhas. O caminho de volta era um mausoléu de pegadas assustadoras deixadas no chão.

Passou uma semana e o corpo continuava igual. Tão podre que nem as aves de carniça se aproximariam. Tão vivo que ela deixara de acreditar na morte – na passagem prometida pelo bom deus. A mulher corroía-se em tristeza e tédio no assoalho gelado.

Como o trabalho tinha sido para se tornar santa, se fora feito em prol de si mesma? Ela não subira aos céus. Pregaria sua maldita missa na terra dos homens. Na terra negra e infértil de mil doenças e mil perversões.

Era hoje menos o espírito de guerra e mais a cabeça flutuando sem ideias; o corpo entregue aos açoites – noite e dia – de músculos e mentiras. Não cabia a ela um nome, já que há tempos tinha perdido o seu significado de gente.

Antes, Joana cozinhava madrugadas de ternura e paixão, ora atordoada pelo amor que admirava, ora assombrada pelas sombras que cruzavam o castelo e ameaçavam seus sonhos virginais. Quando ainda ousava acordar de seu sono miraculoso se via diante das mesmas faces e estava de novo presa às correntes, queimando pelo pecado de outra pessoa.

Quando as entranhas se tornaram cinzas, ela juntou as mãos – nunca verdadeiramente ungidas – e pediu pela sua alma. Mas não subiu. Manteve seus lábios apertados em silêncio. Por fim, desapareceu enlouquecida no labirinto.

O mundo continuou a seguir apenas os seus próprios presságios. A História, no entanto, nunca se calou e prosseguiu queimando com labaredas sete vezes maiores do as paredes do palácio. E os homens continuaram entediados demais para entender o que se passara.