Sobre os ideais

O punho fechado ajusta com esmero a tensão da corda. As duas extremidades da parábola se contraem como se ainda navegassem imortais no útero materno. A seta adormece em sono virgem, mas com a ponta tremendo de ansiedade, aguardado os segundos que a separavam do êxtase de atravessar a carne de um animal.

De repente dispara.

O grito do vento deflora o ar sem qualquer peso místico. O vermelho correndo pelos lábios da seta legitimam sua vitória. Com impetuosa velocidade, o homem cruza os curtos vales não encontrado desafio capaz de contê-lo. Sem cuidado, os pés pesados e corruptos pisam e se safam, agredindo os pequenos bosques de flores. Contaminado pelo cheiro metálico do sangue, o caçador chega com violência até sua presa.

Curvando-se para conferir seu trabalho, ele pega e guarda, com orgulho, a flecha certeira dentro da aljava. O sol se esconde na colina já muito apertado entre uma bochecha e outra. Chega a hora de fazer o caminho de volta. Com passos musicais crepitando sobre folhas secas e gravetos, no farfalhar irrequieto das árvores, para e observa a caça moribunda ainda com expressões paralíticas de dor. Então, em um gesto irônico e desrespeitoso, levanta a cabeça aos céus e sela suas orbitas.

Com sua moral bruta tinindo nas costas, no peito, em cada célula de seu truculento corpo, congela inerte por trinta e sete segundos. Refletia, alguns diriam; ou talvez só ouvisse o cantarolar fértil do cerne da floresta. Espera – espera pouco, mas espera. Acredita que a voz doce da mãe terra preencherá seus ouvidos pregando que todos os seus feitos serão lembrados e que sua alma será para sempre petrificada no coração de belas mulheres como a de um indigente do bom deus.

“Estou me tornando tudo aquilo que odeio” o caçador pensou.

Os 10 Melhores Discos de 2014

Este foi o ano em que fiz a lista menos pensada possível. Ironicamente, é a minha lista favorita em todos os anos. Talvez porque, distante de revistas, blogues e artigos, eu tenha tido a liberdade de forma minhas opiniões isento de qualquer influência externa. Ainda assim, é preciso dizer que, por falta de tempo, não consegui ouvir mais do que 80 discos (comparando com 2010, quando ouvi 800, chega a ser assustador). Confesso também que pouco pensei sobre funções obrigatórios do pop ou sobre tendências sonoras. Não observei padrões, nem teci teorias. Fiz o que todo apaixonado por música deveria fazer: ouvi música. O resultado é essa coletânea muito particular de discos:

10. Present Tense – Wild Beasts

“We feel the thing they will never feel” (‘Wanderlust’)

Depois do ápice poético (com uma obra que dialogava com a agonia de Clarice Lispector e a agressividade lírica de Mary Shelley), o Wild Beasts voltou seu foco ao que lhes pareceu obrigatório: o rock inglês. Numa espécie de resposta ao indie – e sua ironia chique -, a banda criou uma atmosfera nada pomposa, como se a denunciar todos os exageros dos compatriotas. Sem depender dessa opção e utilizando-a sempre como aliada das composições, oferecem a 2014 essa pequena pílula de reflexões sobre os tempos atuais. O disco menos ambicioso deles, mas o mais preciso. A música mais bonita do ano, Sweet Spot, está aqui.


9. A U R O R A – Ben Frost

Ben Frost poderia fazer parte daquele lista de produtores que, antes explorarem um sub-gênero específico, procuram endereçar seus discos a algum cenário. Tendo trabalhado durante muito tempo com trilhas sonoras de filmes, o sujeito consegue lidar com essa proposta de forma quase perfeita. Da condução fantasmagórica à escolha dos ritmos soturnos, passando inclusive pelo nome das faixas. Tudo em A U R O R A grita o conceito sonoro e imagético que Frost imaginou. Daí que acaba se tornando um daqueles raros discos de eletrônica em que nos emocionamos antes mesmo de entender todo seu pernóstico mecanismo.


8. In Conflict – Owen Pallett

“My salvation is found in discipline” (‘I Am Not Afraid’)

Se tivesse dividido minhas previsões sobre Pallett com alguns amigos, talvez estivesse dizendo com todos as sílabas: “eu avisei”. Em 2010, a luz de Heartland, pensei: “Nos próximos anos esse cara vai gravar uma grande obra”. Não deu outra. Pallett só precisava abrir mão das amarras que projetou para si. In Conflint é, portanto, a somatória de anos e anos de uma experimentação. Impressionante mesmo é como um álbum tão obcecado por suas canções acaba soando com um fim de semana tranquilo em que um pacato homem resolveu refletir serenamente sobre a vida.


7. What is this Heart? – How to Dress Well

“Even broken my heart will go on” (‘Repeat pleasure’)

No capítulo novo do How to Dress Well, Tom Krell deixa de lado o desenho de suas atmosferas para se provar um baita compositor. Seria redundante dizer que o álbum expressa a forma como ele vê a música pop – até porque tudo que ele fez é, na verdade, uma tradução de sua percepção diante da tradição que admira. Mas não consegui pensar em outra maneira de defendê-lo, sem ser apontando que, muito embora Krell tente lapidar com detalhes inquietos a maiorias dessas faixas, o que mais me pega é sua capacidade melódica. Sem qualquer senso de ridículo, What is this Heart? abusa do melodrama para despejar hits improváveis nos seus fones de ouvido.

6. Benji – Sun Kil Moon

“In this senseless tragedy, oh Carissa, I will sing your name across a thousand seas”  (‘Carissa’)

Benji é um projeto completamente atípico. Tratar das sonoridades que ele trabalha parece até superficial diante de tanta capacidade narrativa. O caso aqui é de uma forte inversão. Os arranjos e melodias servem exclusivamente ao andamento das palavras. A sensação é de ouvir um diário sendo pouco a pouco destrinchado. Como se Mark nos deixasse espiar sua privacidade, expondo seus pensamentos mais abstratos sobre assunto muito comuns.

Uma das faixas chama-se ‘I Can’t Leave Without My Mother’s Love’. Outra ‘Ben’s My Friend’. E aí está toda a beleza desse disco: a capacidade de encontrar no cotidiano o oxigênio para a força universal dessas letras. Benji é um humilde registro dos pensamentos de um sujeito completamente ordinário que não tem qualquer vergonha de sua condição humana.


5. You are Dead! – Flying Lotus

“Tell me I’m in control now, tell me I can live longer now” (‘Never Catch Me’)

Há quem diga que o Flying Lotus é uma gênio rítmico e um idiota melódico. Existe alguma razão para contestar sua versatilidade melódica se você se aproximou dos seus discos da forma errada. Ocorre sim um desdobramento quase repetitivo, mas isso faz parte do ideário musical dele. You are Dead!, por isso, me soa como o capítulo mais perfeito. Retomando os temas de jazz dos anteriores, ele busca se recriar a partir de estereótipos – com o cuidado, claro, de fazer tudo isso soar tão obtuso quanto as primeiras audições de Cosmogramma foram. Nessa leva acaba produzindo uma fusão (ou seria uma profusão?) de todos os seus protótipos. Uma jornada em cacos, partículas, pedaços de obras-primas. New Jazz-Music, eu gostaria de chamar. No entanto, como FlyLo deixa a entender, o jazz nunca envelheceu de verdade.

(Obs: a faixa com o Kendrick Lamar é a melhor do ano e tem o melhor clipe da década)

4. The Unnatural World – Have a Nice Life

“It isn’t real, but it feels real” (‘Burial Society’)

Talvez o ponto mais difícil da carreira de uma banda seja escrever o disco que sucede uma obra-prima. Bandas ambiciosas demais tentam o mais difícil: devolver fogo com fogo – ou seja, produzir outra obra-prima. O Have a Nice Life é formado por dois sujeitos muito realistas e isso provavelmente é capaz de explicar, por si só, como The Unnatural World sobrevive diante de Deathconsciouness.

Dan e Tim se uniram novamente para gravar um álbum que não soa como um adendo do anterior, nem mesmo uma continuação, mas um movimento totalmente diferente para um estilo que eles desenvolvem há diversos anos. Nesse sentido, essa aqui é a resposta possível do Have a Nice Life à problemática do próprio som: uma ode ao seu talento na produção. Pedras pequenas que soam como enormes pedregulhos.


 3. It’s Album Time – Todd Terje

“He need all the world to confirm that he ain’t lonely” (‘Johnny and Mary’)

Quem só imaginava Terje como um figurão sueco disposto a reinventar a música que nos faz dançar, talvez tenha se surpreendido com a versatilidade desse disco – quem esperaria uma balada romântica como ‘Johnny and Mary‘? Talvez esse ouvinte mais desatento tenha deixado de perceber como o objeto de estudo do produtor é sentimental. Terje se dá o direito de soar humano não só para poder explorar com tranquilidade suas experiências quase sensoriais (como definir ‘Inspector Norse‘ de outra forma?), mas porque encara a eletrônica como uma aventura nostálgica rumo ao desconhecido. Se isso te fizer dançar ou chorar no meio do caminho, ótimo. No entanto, a verdadeira sacada do disco é que eles nos permite fazer os dois simultaneamente.

2. LP1 – FKA Twigs

“So lonely trying to be yours, when you’re looking for so much more”  (‘Pendulum’)

O tempo dará o seu jeito de transformar esse disco numa peça descartável representante de um ano fraco. Mas não se deixe enganar. Há poucas investidas em 2014 tão pouco óbvias quanto essa. Até para quem já se acostumou com as milhares de vertentes que o R&B ofereceu desde o surto que o ressucitou, LP1 soa como um objeto estranho.

Numa visão geral, seria ele um disco de R&B ou de trip-hop? Difícil afirmar. Quanto mais se ouve, mais fica claro como a produção estufa o peito e encara os desafios de ambos os gêneros corajosamente. Funciona, no fim das contas, como um registro (sucinto até) de tudo que há de especial na maior tendência da música pop nessa década.

1. Our Love – Caribou

“How can we fix our love?” (‘Back Home’)

Snaith não optou por mexer muito na proposta que havia pensado para Swim, o elogiado álbum anterior. Ao contrário do que esperavam, voltou novamente sua atenção à intenção ambiciosa de encontrar os caminhos que levaram a dance-music a psicodelia (e vice-versa). Antes ele mirou um universo esparso, lotando a execução de faixas movediças. Aqui é mais honesto, nos oferece sua entrega emotiva e um legítimo disco pop.

Dando-se ao direito de tratar do tema mais recorrente da arte (o amor), Snaith acabou criando uma ponte entre sentimentos simples e abstrações musicais complexas. Our Love é, afinal, uma reflexão sobre como lidamos, em prol do nosso próprio ceticismo, com as coisas que amamos. De longe, o disco mais emotivo que a década produziu.

Quando toda a minha gentileza acabar

Quantas pessoas estarão sentadas aguardado, pacientemente, o momento em que tudo que antes era transformado em humildade se tornará meu de verdade? Quantas estarão assistindo, sem qualquer imunidade, o instante em que a última injustiça for capaz de converter bondade em potência?

E quando a passividade esvaziar-se em mim fazendo surgir daquele ambiente estéril uma nova forma de agressividade? Nessa hora saberei que, enfim, estou bem.

Penso: quem será que vai me incomodar, quando toda a minha gentileza acabar?

Você sabe o quê que eu quero ser?

“- Você sabe o quê que eu quero ser? – perguntei a ela. – Sabe o que é que eu queria ser? Se pudesse fazer a merda da escolha?

– O quê? Para de dizer nome feio.

– Você conhece aquela cantiga: “Se alguém agarra alguém atravessando o campo de centeio”? Eu queria…

– A cantiga é “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”! – ela disse. – É dum poema do Robert Burns.

– Eu sei que é dum poema do Robert Burns.

Mas ela tinha razão. É mesmo “Se alguém encontra alguém atravessando o campo de centeio”. Mas eu não sabia direito.

– Pensei que era “Se alguém agarra alguém” – falei. – Seja lá como for, fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer. Sei que é maluquice.”

(Pág 168. O apanhador no campo de centeio, J.D. Salinger)

Eu nunca aprendi a dividir

Meu irmão e minha irmã não falam comigo.

Sobram, então, cerca de vinte parentes com quem troco abraços breves ou acenos desconfortáveis, e uns dois ou três com quem troco algumas palavras de educação. Mas meus irmãos, com eles nem olhares.

Cheguei à reunião de família pouco depois das duas horas e o calor intenso fazia com que todos ocupassem sistematicamente o jardim de entrada. Era como observar um jogo de xadrez, cada peça no seu devido espaço, cada um conversando com o familiar que considerava mais próximo.

Entrei caminhando a passos largos, passando a impressão de que já estava pronto para me despedir. Fiz uma comunicação breve com a maioria e entrei na casa. Fora as duas empregadas que arrumavam os pratos lambuzados de doces e os copos meio vazios de cerveja, ninguém mais passava por ali. No entanto, sabia exatamente onde meu avô estava – e o mínimo que podia fazer a essa altura era cumprimentá-lo.

Passei pelo corredor cruzando a porta da cozinha e fiz um gesto veloz para as cozinheiras (que permaneceram imóveis, provavelmente sem fazer ideia de quem era a criatura que por ali passava). Segui um pouco envergonhado pelo saguão e depois pela sala de jogos – onde um tio distante bebia sozinho em sua obesidade e tristeza, acho que tocava na vitrola Wagner ou Schubert, não sei dizer.

Depois de toda as várias salas, meias salas e halls surgia ela, inerte e completamente tatuada em minha memória: a porta do escritório do vovô. Dificilmente perderia várias linhas descrevendo uma porta, como você talvez encontrasse naquele fatídico capítulo de “O Nome da Rosa”; porém, não nego minha vontade de detalhá-la. Não o farei, cabendo ao leitor o trabalho doloroso de imaginar uma simples porta de madeira que parecia guardar todos os mistérios do mundo. Não faça aqui comparações com a caixa de Pandora. Por favor. Não havia nada de cruel e caótico ali dentro. Pelo contrário, se um cômodo pudesse ganhar o prêmio Nobel da paz, certamente seria aquele – implicando aí todas as conotações e digressões da palavra.

Encostei a mão na maçaneta e estava fria (e destrancada, como de costume). Depois de vários anos, acredito que ninguém se dava muito ao trabalho de visitar o vovô. Sem qualquer dúvida de que seria bem recebido, abri e entrei. Era quase como se estivesse dentro de um compartimento embalado a vácuo. Olhar para os céus daquele ambiente, assemelhava-se a encarar do chão o cume do Everest. Tantos livros para se conquistar, tanta sabedoria para se adquirir. E tão pouco oxigênio.

Vovô estava no lugar de sempre. Sentando na poltrona que virava-se para a varanda. O sol ainda batia sobre seus ombros, mas isso não o impedia de utilizar um espessa luminária de pescoço fino e aro de aço.

O lugar e suas coisas estavam intactas mesmo depois do que soava como milhões de anos. Ele cuidava do seu mundo como nenhum outro ser humano. Se deus realmente existe, meu avô certamente era um dos poucos tocados por ele. Não só o esmero daquele senhor em catequizar quem quer que entrasse no seu templo, mas também porque sua mera presença engolia qualquer vazio. E era ateu. “Ateu de pés juntos”, dizia brincando.

– O que está fazendo ai como se tivesse o diabo nas costas? – perguntou ainda com os olhos enterrados sobre as palavras.

Ele adorava citar essas coisas. Como se a religião fosse a simbologia simultaneamente mais digna e estúpida do mundo. Sempre concordei com ele. Nunca aceitei qualquer dogma para mim e sempre desprezei pessoas que se abraçam às falácias divinas para enfrentar seus problemas; no entanto, sempre entendi o universo como uma manifestação religiosa.

– Que saudades, vô!

Caminhei até sua direção, ao passo que ele terminava de fechar o livro que lia.

– Tenho a sensação de que não o vejo há mais de dez anos. E mesmo assim – ele parou de falar e colocou as mãos trêmulas sobre as maçãs do meu rosto e então continuou – você não envelheceu um único dia.

Cada palavra, cada sílaba, cada som, tudo que sua boca proferia flutuava no ar como um coloide de ar e paixão. Não havia uma hesitação sequer. Nem o melhor charlatão passava a impressão que ele passava. Meu avô era o homem mais verdadeiro entre os homens verdadeiros. Ainda que eu não tenha diploma para defender esse tipo de coisa.

Não fazia silêncio. Por mais calado e observador que sua pessoa fosse (eu jamais consegui imaginar o meu avô fazendo grande esforço dialético para conquistar minha avó, por exemplo), o sujeito nunca foi muito adepto da total falta de som. Sempre havia música. E ali não havia dúvida, ele ouvia “Réquiem” do Mozart – de novo a aprovação irônica da religião que ele tanto negava.

– Rex tremendae – eu balbuciei.

Ele sorriu com enorme pureza.

– Você ainda se lembra, não é? Do rei?

– E há como esquecer, vovô? – completei, ainda que meu iPod pudesse tornar aquela colocação totalmente falsa.

De fato, aquela música dizia muito sobre mim. Talvez por isso vovô tivesse feito aquela pergunta. Desde sempre manifestei interesse curioso por pequenos delitos sentimentais, tais quais de um deus vaidoso. Criado numa casa sem pai e nem mãe, nunca tive muito limite. E, com impetuosa liberdade, meu avô me permitia qualquer tipo de golpe. Seu único defeito: ele acreditava que todos os seres inteligentes ganhavam naturalmente o direito de açoitar os mais fracos. Mal sabia ele que os mais fracos sempre tiveram um jeito ou outro de responder a essa imposição divina. E, o pior de tudo, nunca fui tão brilhante como ele imaginava que eu seria. Meus irmãos, ditos mais “simples da cabeça”, acabaram se encontrando com maior facilidade.

Ainda assim, meu irmãos amavam meu avô igualmente. Sabiam que por trás daquela máscara de complexidade intelectual existia um homem passivo e alegre ao viver o comum. O problema, de fato, era eu. Vovô compreendia minha ira resguardada, porque sempre soube que ao nascer com muito, esperaria muito durante toda vida. Era de sua compreensão também, o caminho que me levaria para tão distante de todos os membros daquela família.

Havia em “Réquiem” outro momento com o qual me identificava ainda mais do que com o famigerado rei tremendo. Tratava-se do momento em que Mozart inseria um coro em tons baixíssimos, quase mórbidos, com os dizeres: “me chame para junto dos abençoados”. Acredito que tenha passado meus vinte e poucos anos de vida pensando nessa frase. Pensando e me frustrando com a certeza de que a bênção divina nada mais podia ser do que a ignorância. No fundo, acreditava que vovô devia ser o único homem sábio capaz de fazer pouco da própria existência. Como se a morte fosse apenas um piscar de olhos. Uma ironia. Uma percepção e não uma sentença perturbadora.

Dessa forma, ficava fácil entender porque vovô não se motivava muito com formalidades. Ele não ia me perguntar como eu estava, por exemplo. Esse tipo de pergunta não constava em seu itinerário. Provavelmente não faria mais qualquer vocalização, só esperaria minha manifestação.

– Acho que vou me mudar, vô. Ir para outra cidade, tentar fazer alguma coisa diferente. Preciso esquecer uma mulher que não me ama. Preciso esquecer meu gato que morreu. Preciso ler alguns livros. Preciso escrever.

Seu rosto se tornou severo. Os óculos caíram abruptamente em suas mãos. Já esperava por isso. De novo, dirá que tudo isso vai passar quando eu aprender a aceitar os limites como sendo apenas pontos específicos do tempo – ou qualquer outra explicação do tipo, que provavelmente só seria compreendida meses depois.

– Mudar vai ser bom. Novos ares trarão novas ideias. Não esqueça essa mulher, apenas aceite. Sinta a dor, ela faz parte de estar vivo. Compre outro gato. Não leia se não estiver afim. E só escreva depois que tudo isso que eu disse se torne só parte do seu dia.

Aquele pequeno sermão sereno, talvez tenha satisfeito quem está lendo, mas me deixou extremamente irritado por algum tempo. Ninguém quer ouvir exatamente o que espera ouvir. Acho que, no meu egoísmo sentimental, sempre espero que as pessoas se relacionem com a minha agonia. “Se eu tivesse tudo que quero nesse momento, talvez não estivesse tão consumido pelo meu egocentrismo” costumo pensar.

Absorto em meus pensamentos nem percebi que o vovô já havia voltado-se para seu livro. Era sua forma de dizer adeus. Enquanto me afastava imaginei-o como um centenário relojoeiro, talhando pequenas engenhocas e acertando cuidadosamente os ponteiros para as horas certas. Um grande mestre do tempo, ciente de que tudo é, na verdade, mera futilidade nossa.

Quando sai do escritório, vi meus irmãos conversando na escada. Ambos me viram e fingiram que ninguém estava ali. Como disse antes, meu irmão e minha irmã não falam comigo. Mas eu não os culpo.

O vento se levanta

Eu fiz alguns erros na minha cabeça. E por isso tudo começou a se mover. Por todo os lados.

Por todos os lados, continue a se mover por todos os lados.

Por todos os lados, continue a se mover por todos os lados. Como pêndulo, como fantasma no tempo.

Por todos os lados, me perseguem, querem me prender, me fazer negar o que anseio; mas eu pulo casas, dobro em esquinas e me escondo.

Por todos os lados, tudo se mantém unido movendo-se junto de sua silhueta por todos os lados.

Por todos os lados! Pela direita! Pela esquerda! Por todas as suas curvas eu espero ir esta noite: conter, por segundos, todas as cidades do mundo em mim, todas as histórias incompletas, todas as viagens canceladas, todas madrugadas taciturnas, todas as antigas paixões de veraneio.

E então despertar, porque existem remédios piores do que a própria doença.

O meu silêncio

Vejo de longe – ou imagino – uma grande soleira onde as árvores recuam delicadamente, como se estivessem curvando-se diante daquele lugar. Acredito que o vento bateria agressivamente contra as folhas, agitando o fogo e as sombras.

Nesse local, não existem diferenças ou semelhanças, verdades ou mentiras. Não trata-se de uma manifestação de felicidade, é algo mais simples. Não é, também, fruto de um silêncio como o que vem lá de cima e sim um silêncio dinâmico, que fomenta novas dúvidas.

Aqui posso, enfim, ouvir alguém. Posso ouvir na água. Nos murmúrios do vento. Está em toda as partes, trêmula como uma chama falciforme. Pelas sombras, seguindo e seguindo, até o limiar da noite. Caminhando preguiçosamente, mas sempre competente e orgulhosa.

Muitas estações passaram, até que finalmente as folhas caíram no chão. Elas não esperaram por nós. Em breve irão renascer: mais firmes, mais tolerantes, conscientes de que um limite conhecido, é um limite do passado.